AS IDEIAS VISIONÁRIAS DE GIORDANO BRUNO

Por Juliana Vannucchi

Giordano Bruno é uma das personalidades mais brilhantes de todos os tempos e um dos principais representantes do Renascimento, que foi um período de profundas transformações artísticas, culturais e ideológicas ocorrido na Europa entre os séculos XIV e XVII, no qual outros grandes nomes também se destacaram, tais como Maquiavel (1469-1527) e Thomas More (1478-1535) na filosofia, Leonardo da Vinci (1452-1519) na pintura, Dante Alighieri (1265-1321) na literatura, dentre vários outros cujos legados permanecem sendo imensamente influentes.

Filippo ou Filipe (há divergência em relação ao nome) Bruno nasceu em 1548, em Nola, província de Nápoles, na Itália. Seu pai era Giovanni Bruno e sua mãe se chamava Fraulissa Savolina. Quando tinha 17 anos, Bruno ingressou no Convento de São Domingos, que ficava em Nápoles, e foi nesse período de sua vida que passou a ser chamado de “Giordano”. O jovem italiano passou uma década no local e saiu de lá em 1575 como sacerdote. Durante essa fase em que viveu sob forte influência da atmosfera cristã, Bruno teve contato com autores e temáticas não ortodoxos que se afastavam bastante dos preceitos católicos, como Lúlio (c. 1232- c. 1316) e Copérnico (1473-1543), sendo este último defensor do heliocentrismo, teoria que defendia a ideia de que a Terra girava em torno do Sol, diferentemente da crença convencionalmente vigente na época em que Bruno viveu, de acordo com a qual o Sol é que girava em torno da Terra, sendo o nosso planeta, desse modo, visto como o centro do universo. Por travar contato com esses escritores e com outras ideias consideradas subversivas, incluindo seu forte apreço pela cabala judaica e pela obra de Nicolau de Cusa (1401-1464), além de dar indícios de que possuía uma visão a respeito do universo que divergia da que era pregada pelo catolicismo, sendo, desse modo, questionador no que diz respeito aos dogmas teológicos de seu tempo, Bruno logo começou a receber críticas, sendo alvo de investigações e repreensões por parte de membros do convento.

Em decorrência de tais fatos, o primeiro processo sofrido por Giordano Bruno aconteceu em 1567. E não demorou muito para que ele fosse efetivamente acusado de heresia, fato ocorrido em 1576 e que o levou, aos 28 anos, a fugir para Roma a fim de evitar problemas mais graves com a Igreja. Mais tarde, afim de refugiar-se e dar sequência aos seus estudos e leituras, Bruno se dirigiu para diversas outras cidades de seu país natal, passando por lugares como Turim, Gênova, Noli, além de outras localidades, e ao longo dos 14 anos seguintes o pensador italiano peregrinou também por vários países da Europa, como França, Inglaterra, Suíça e Alemanha. Em meio a essas passagens por distintas localidades do continente europeu, Giordano Bruno ministrou aulas de astronomia e também de latim.

Durante suas vastas peregrinações, no ano de 1590, o pensador passou a viver em Frankfurt, na Alemanha. Enquanto estava por lá, certa vez foi procurado por um nobre de Veneza que se chamava Giovanni Mocenigo (1408-1485) e que demonstrava ter um enorme interesse nos conhecimentos de Giordano Bruno a respeito da arte de memória, que consistia, em suma, num conjunto de técnicas apuradas de visualização para fins de memorização. O filósofo aceitou partir com Mocenigo, que se comprometeu a lhe dar proteção e abrigo em troca de conhecimento.

[…] por ser animista, entendia que a matéria era portadora de um princípio divino e que, portanto, tudo tinha alma. / Imagem obtida no Google (Reddit).

No entanto, em 22 de maio de 1592, Mocenigo trancou Giordano Bruno num aposento de sua casa e foi procurar representantes do Santo Ofício, para os quais entregou prontamente o filósofo, entregando-lhes também alguns de seus escritos que ainda não haviam sido publicados. Cabe lembrar que, conforme constatado anteriormente, a Igreja já estava, há um certo tempo, ciente das heresias de Giordano. As razões que levaram o nobre veneziano a ter essa iniciativa e trair o pensador de Nola são um tanto nebulosas e, historicamente, há bastante divergência informativa a respeito. Mas o fato é que isso realmente aconteceu. Mocenigo traiu a confiança de Bruno e, a partir dessa ocasião, sua vida tomou um rumo bastante trágico.

Dentre os diversos lugares pelos quais Giordano Bruno esteve, a Inglaterra foi particularmente marcante por um fato importante que aconteceu lá. Bruno passou um período em Londres e, em certa ocasião, escreveu formalmente uma carta endereçada para as autoridades da conceituada Universidade de Oxford, pedindo que o deixassem apresentar suas ideias filosóficas nesse meio acadêmico. Ele conseguiu concretizar esse plano e, inclusive, se tornou professor nessa universidade. No entanto, logo suas perspectivas filosóficas e religiosas começaram a colidir com as crenças e interpretações de mundo que eram aceitas entre outros membros da academia e, assim, após alguns meses lecionando, surgiram problemas com outros professores, o que levou Bruno a abandonar as aulas e retornar para a capital inglesa. Um fato bastante significativo é que essa não foi a primeira universidade em que deu aulas, pois anteriormente Giordano Bruno já havia lecionado em Paris e também em Londres. Além disso, durante esse período de tempo em que passou na Inglaterra, o pensador italiano publicou um total de mais de sete obras, e com isso podemos considerar que esse foi um momento intelectualmente ativo e bastante inspirador e próspero de sua existência, em que uma parcela grandiosa de sua herança filosófica e científica foi concebida.

Giordano Bruno, ao longo de sua vida, não somente teve problemas com os dogmas católicos, mas também foi excomungado pela Igreja calvinista, da qual se aproximou em 1579, quando esteve na comuna italiana de Gênova. Ele não compactuou com alguns de seus preceitos. Posteriormente, também foi excomungado pela Igreja luterana, à qual havia se convertido durante o período que passou na Alemanha. Assim como também havia acontecido anteriormente em relação ao catolicismo, suas ideias eram essencialmente distintas ao que essas duas outras doutrinas religiosas propunham.

Uma das principais características do pensamento cosmológico de Giordano Bruno é que ele considerava que o universo fosse infinito e ilimitado. Ademais, também dizia que deveriam existir muitos outros planetas parecidos com a Terra, igualmente portadores de vida inteligente. Deus, conforme acreditava o filósofo italiano, era infinito e, dessa forma, sua criação também deveria ser igualmente infinita, pois o efeito, ou seja, a criação, deveria, afinal, refletir a causa, isto é, Deus. Giordano também foi um grande defensor do heliocentrismo e contestador e opositor da filosofia aristotélica, refutando as interpretações do filósofo grego em relação ao cosmos e à natureza. Além disso, enquanto animista, entendia que a matéria era portadora de um princípio divino e vital (Anima mundi) e que, portanto, tudo tinha alma – o ser humano, os animais, as plantas e até mesmo os mineiras. Giordano Bruno também sustentava que a Terra era viva e Deus estaria presente em tudo (Deus e o universo seriam, no fundo, uma unidade).  Surpreendentemente, também assegurava que além de Saturno (o planeta mais distante do qual se tinha conhecimento naquele período), haveria outros planetas orbitando ao redor do Sol. Isso foi confirmado bem mais tarde; inicialmente, em 1781, com a descoberta de Urano e, por fim, em 1930, com a descoberta de Plutão (História da Ciência, p. 07, 2000, Jornal da Unesp).

Giordano Bruno não tinha somente uma perspectiva cosmológica diferente da maioria de seus contemporâneos, mas possuía também um notável nível de conhecimento oculto, dominando diversos conceitos de magia e deixando em seu amplo legado inúmeros escritos sobre o assunto. Durante o tempo em que viveu na cidade de Frankfurt, na Alemanha, ele inclusive ditou a obra Tratado de Magia a um discípulo. Nesse livro, discorre sobre temas como os vários significados da palavra magia e seus respectivos usos ao longo do tempo, além de abordar reflexões sobre assuntos como magos, fé, imaginação, espírito e demônio. Ora, dificilmente ele não sairia impune da Igreja com abordagens como essas…

A chamada arte de memória, anteriormente mencionada, é certamente um dos aspectos mais interessantes da vida do pensador italiano. Aliás, pelo que se sabe, umas das razões que fez com que Bruno se tornasse bastante conhecido entre seus contemporâneos, era justamente sua extraordinária habilidade de memória que baseava-se em técnicas de concentração mental e, conforme sugerem algumas fontes, também era fundada em conhecimentos ocultos. Conta-se que ele era capaz de decorar pequenos trechos de textos, páginas, ou até mesmo livros inteiros, podendo, inclusive, citá-los de trás para frente. A arte da memória também é conhecida como “mneomotécnica”, e esse foi um assunto abordado em algumas das produções literárias de Giordano Bruno, que tinha conhecimento de métodos muito precisos para poder decorar tantas coisas. Para isso, ele basicamente usava uma série de ilustrações simbólicas que possuíam certos significados específicos e também recorria à imaginação como uma ferramenta poderosa e eficaz pela qual se imprimia na mente aquilo que se desejava decorar. É válido mencionar que, historicamente, esse tipo de sistema e prática de memorização não começou com Bruno, pois já existia e era utilizado anteriormente, embora o filósofo tenha se destacado e se diferenciado devido a sua erudição no assunto e, sobretudo, ao seu impressionante talento de memorização. Bruno, aliás, chegou a ensinar a arte da memória para várias pessoas, dentre as quais conta-se que estaria o rei Henrique III. Inclusive, uma de suas obras na qual o pensador italiano aborda essa técnica, chamada De umbris idearum, foi justamente dedicada a Henrique.

Sabe-se que Giordano Bruno (1551-1589) também portava um vasto conhecimento sobre o Hermetismo, uma complexa e profunda sabedoria antiga que até os dias de hoje é um dos mais importantes assuntos no que diz respeito aos estudos sobre magia. De maneira geral, outras célebres figuras de seu tempo e também as que viveram um pouco antes dele tinham enorme interesse acerca da tradição hermética, que foi amplamente revisitada na época do Renascimento. Bruno, conforme sabemos hoje, era um verdadeiro mago hermético. 

O processo de Giordano Bruno teve início no dia 3 de julho de 1592. No ano seguinte, o processo continuou na cidade de Roma e, nessa mesma época, o filósofo foi preso na Tor di Nona, onde ficou encarcerado durante anos, até que, por fim, no dia 20 de janeiro de 1600, sob ordem do Papa Clemente VIII, foi declarado pela Congregação que os livros de Giordano Bruno deveriam constar no Index de Livros Proibidos. Nesse mesmo ano, o pensador italiano foi condenado à morte. Conta-se que, ao saber qual seria o seu destino, fixou o olhar nos juízes e, com ousadia, disse que eles, ao pronunciarem sua sentença, sentiam mais medo do que ele próprio tinha ao escutá-la. Bruno, ao longo da época em que esteve preso e foi julgado, demonstrou muita coragem e sempre saiu em defesa de suas crenças.

Em 17 de fevereiro de 1600, o filósofo italiano foi conduzido para o Campo de Fiori ou Campo das Flores. Era uma quinta-feira. Ele chegou nu ao local, logo foi amarrado numa estaca e, enquanto muitos dos presentes entoavam canções, foi queimado vivo. Conforme algumas fontes, Giordano Bruno, enquanto ardia em chamas, desviou seu olhar de um crucifixo que estava próximo dele.

A obra de Giordano Bruno é bastante complexa, mas tem um conteúdo fascinante. Muito tempo já se passou desde que ele faleceu, porém, a sua herança, de maneira geral, é muito preciosa, e através dela percebemos o quanto suas ideias eram avançadas para a época em que ele viveu. Giordano Bruno foi um dos filósofos mais heterodoxos de toda a história do pensamento ocidental e, certamente, um dos mais ousados e valentes. Dentre seus mais importantes livros estão Da causa, do princípio e do uno, Do infinito, do universo e dos mundos e Dos heroicos furores. Ele também foi personalidade altamente influente para grandes personalidades que o sucederam, como é o caso de Galileu Galilei e Leibniz. Até os dias de hoje, suas obras são constantemente estudadas, lidas e pesquisadas. Em 1973, a vida de Giordano Bruno recebeu até mesmo uma merecida e aclamada adaptação cinematográfica, dirigida pelo cineasta italiano Giuliano Montaldo (1930-2023).

Referências bibliográficas:

YATES, Francis. Giordano Bruno e a tradição hermética. São Paulo: Círculo do Livro, 1962.

BRUNO, Giordano. Tratado de magia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

DARIO, Antiseri. REALE. Giovani. História da Filosofia: do Humanismo a Descartes. 2. Ed. São Paulo: Paulus, 2005.

BRUNO, Giordano; GALILEI, Galileu; CAMPANELLA, Tommaso. Sobre o infinito, o universo e os mundos. São Paulo: Abril, Cultural, 1983. (Os Pensadores).
Jornal UNESP. Nº: 144, 2000.


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