O LEGADO CIENTÍFICO E INTELECTUAL DE GALILEU GALILEI

Por Juliana Vannucchi e Sílvia Vannucchi

Galileu Galilei é uma das personalidades mais fascinantes, transgressoras e conhecidas de nossa história. Ele foi um primoroso físico, matemático e astrônomo, e seus métodos, descobertas, obras e estudos fizeram com que se tornasse um dos nomes mais importantes da ciência.

Galileu nasceu no dia 15 de fevereiro de 1564, em Pisa, na Itália. Seu pai era músico e se chamava Vicente Bonaiut-Galilei e sua mãe era Giulia, vinte anos mais nova que o marido. O casal, além de Galileu, teve outros seis filhos, mas dentre eles, somente um menino e duas meninas sobreviveram. Embora não gozasse de prestígios financeiros, a família esforçou-se imensamente para que Galileu, desde tenra idade, tivesse uma educação qualificada, e ele, ainda muito novo, já começou a mostrar que era diferenciado, possuindo uma imaginação bastante rica e ótimas ideias. Como seu pai era músico, Galileu chegou, inclusive, a apresentar um enorme talento nessa área artística e também na pintura, na qual era notavelmente habilidoso, passando a ser considerada a possibilidade de seguir profissionalmente nessas áreas. Porém, Vicente, ciente dos impasses de uma carreira artística, preferiu incentivar o filho a traçar um outro caminho.

Assim sendo, apesar das afinidades com o mundo artístico, no ano de 1581, Galileu começou a cursar medicina na Universidade de Pisa. E foi enquanto estudava nessa área que começou a sentir-se fortemente atraído pela leitura das obras de célebres matemáticos, como Arquimedes e Euclides, com os quais logo se familiarizou. Em sua vida universitária, Galileu também começou a se mostrar contrário às ideias políticas e socialmente vigentes, e isso fez, inclusive, com que alguns professores implicassem com ele, levando-os, certa vez, a redigir e enviar uma carta ao seu pai, alertando Vicente sobre o comportamento do filho.

Pintura de Galileu Galilei, feita por Francesco Porcia (1531- 1612).

Quando cursava medicina, Galileu também chegou a fazer aulas particulares de matemática com um homem chamado Ostílio Ricci, que ministrava aulas na corte do Duque de Toscana, e assim, os números e os cálculos ocupavam um espaço cada vez mais significativo na vida de Galileu. Ora, como é de se supor, sua trajetória no campo da medicina não durou muito e após um período de quatro anos, Galileu acabou mudando sua área de estudo e começou a cursar matemática. No entanto, seu pai mostrou-se contrário a essa decisão, e Galileu acabou deixando a universidade sem a obtenção de um diploma. Assim sendo, precisando se sustentar, começou a dar aula particular na cidade de Florença. A partir de 1587, quando viajou para a capital italiana, começou, aos poucos e cada vez mais, a obter reconhecimento por seu vasto conhecimento científico.

Em 1589, Galileu começou a dar aula de matemática na Universidade de Pisa. Era sua segunda passagem por lá, e ele continuava tendo um perfil refutador. Sua compreensão sobre o mundo, sobre ciência e sobre a natureza costumavam deixar as pessoas à sua volta simplesmente incrédulas. Ele chegou a questionar e criticar até mesmo o uso da túnica, tradicionalmente utilizada nos meios universitários.

Após lecionar em Pisa, em 1592, Galileu alterou sua rota profissional e, durante alguns anos, passou a dar aulas na Universidade de Pádua, sendo que nesse novo ambiente, as coisas passaram a ser um tanto diferentes. Ele logo tornou-se mais valorizado e aceito, conquistando admiração e reconhecimento de alguns professores e estudantes. Esse espaço acadêmico foi, desse modo, bem mais confortável, decisivo e próspero na vida de Galileu.

O matemático italiano chegou a se casar com uma mulher veneziana que se chamava Marina Gamba, com a qual teve três filhos, sendo duas meninas e um menino, chamados Virgínia, Lívia e Vincenzo. No entanto, o casal não ficou junto durante toda a vida de Galileu.

Em 1609, algo importante ocorreu na vida de Galileu: o matemático italiano ficou sabendo da incrível invenção do telescópio, ocorrida na Holanda, e se entusiasmou com a informação sobre esse aparato, ao perceber o quanto ele seria útil para o progresso da ciência. Embora nunca tivesse visto ou manuseado um exemplar, movido por grande encanto em relação a essa invenção, Galileu foi capaz de construir um aparelho semelhante, só que com aperfeiçoamentos, pois o seu telescópio tinha mais potencial e alcance, sendo capaz de aumentar uma imagem em muitas vezes. O instrumento aprimorado por Galileu Galilei chegou a ser apresentado oficialmente para algumas pessoas, e todos que o testaram se mostraram surpresos e encantados.

Galileu fez uso constante de seu aparelho, que serviu para a realização de importantes observações astronômicas que o levaram a fazer constatações e descobertas notáveis, mais tarde mencionadas em seu livro O mensageiro celeste. A obra foi escrita em latim, e uma quantidade significativa de cópias foi vendida num curto espaço de tempo. Nesse livro, Galileu escreveu coisas muito interessantes. Notou, por exemplo, que havia no céu algumas estrelas que nunca antes haviam sido vistas. Além disso, após realizar uma série de observações, Galileu também descobriu a existência dos satélites do planeta Júpiter. Outro fato relevante é que Galileu Galilei constatou que, diferentemente do que se acreditava até então, a lua possuía uma certa irregularidade em sua formação, ou seja, sua superfície não era lisa. Por meio dessas e de várias outras observações, o cientista italiano passou a sustentar uma perspectiva astronômica essencialmente nova e distinta daquela que era assimilada pela maior parte de seus contemporâneos.

Além de aperfeiçoar o telescópio, ele também aperfeiçoou a luneta, aumentando sua ampliação e, em 1597, Galileu Galilei inventou o compasso geométrico, sendo que essa última criação lhe rendeu uma importante quantia de dinheiro. O incansável matemático italiano estava sempre investigando e registrando suas teses. Ele possuía uma oficina na qual havia aparatos científicos que o ajudavam em suas pesquisas.

Um fato importante a seu respeito é que ele possuía uma linha de investigação e pensamento que, de maneira geral, era essencialmente diferente da herança aristotélica e teológica preponderante nessa época e que era defendida e assimilada pela maior parte das pessoas. Aliás, sua posição contrária à filosofia de Aristóteles foi bem explicitada em alguns de seus livros, tais como Discursos sobre as coisas que estão sobre a água e História e demonstração sobre as manchas solares. Além desse posicionamento contrário ao pensador grego, Galileu compactuava com as ideias de Nicolau Copérnico (1473-1543), consagrado astrônomo e matemático polonês, que defendia a teoria heliocêntrica, de acordo com a qual o Sol era o centro do sistema solar, interpretação que se opunha diretamente ao geocentrismo, que por sua vez era um modelo de universo que considerava a Terra como centro do universo. Ora, nesse período, a cosmologia heliocêntrica oferecia, portanto, uma visão substancialmente divergente à que a Igreja sustentava e, como consequência, Nicolau Copérnico foi declarado herege.

Além dessas questões referentes ao heliocentrismo, o italiano Galileu Galilei, curioso e empenhado em entender o movimento dos corpos, certa vez teve a ideia de fazer rolar bolas num plano inclinado. Percebeu então que a aceleração por causa da gravidade atua da mesma forma sobre os objetos, não importando qual é a composição deles. Apenas com a ação de uma forma externa é possível alterar a velocidade dos corpos ou a sua direção. Ele fez também muitas outras constatações importantes e inovadoras, além dessas mencionadas, deixando-nos um legado imenso. Galileu escreveu várias obras, como Diálogo sobre os dois máximos sistemas de mundo, O ensaiador, entre outras. De maneira geral, seus livros e estudos foram, sobretudo, altamente revolucionários tanto para a Astronomia quanto para a Física.

Na época em que viveu, a Igreja possuía um poder autoritário e uma influência social fortíssima na Europa. Assim sendo, como é de se supor, as ideias de Galileu logo começaram a se chocar com as que eram propagadas pela Igreja e passaram, desse modo, a incomodar as autoridades religiosas. Por isso, ao longo de sua vida, o italiano foi constantemente perseguido e teve inimigos políticos e religiosos. Em 1612, a Igreja considerou que a obra e as ideias de Copérnico eram heréticas. No ano seguinte, Galileu publicou um livro no qual mostrava compactuar com as ideias de Copérnico. A partir disso, suas perspectivas sobre o cosmos e o mundo, o conteúdo de suas obras e seus experimentos passaram a incomodar cada vez mais algumas pessoas ligadas ao clero e essa situação logo começou a crescer e ficar perigosa para Galileu Galilei. Em 1616, ele foi convocado a se apresentar oficialmente diante da Igreja, perante o cardeal Belarmino, e em tal ocasião, o Santo Ofício deixou claro o quanto sua condição era delicada. Ele foi então aconselhado a parar de defender e proferir suas ideias, que eram consideradas heréticas. Assinou um documento e, além disso, comprometeu-se a deixar para trás algumas ideias e pensamentos, conforme a Igreja orientou sob forte tom de ameaça.

O tempo passou, e embora Galileu continuasse frequentemente escrevendo e realizando suas pesquisas e leituras, passou a assumir uma posição socialmente mais discreta. Contudo, no ano de 1632, publicou um livro intitulado Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo – Ptolomaico e Copernicano, que resultou em novos desentendimentos entre o cientista italiano e o clero, e assim, em 1633, Galileu foi mais uma vez chamado para se apresentar em Roma. Nessa obra, o matemático italiano, em suma, discorria a respeito da teoria copernicana, que era essencialmente oposta aos dogmas da Igreja. Nesse momento de sua vida, Galileu estava com a saúde bem fragilizada, mas ainda assim, diferentemente do que seu médico recomendou, foi obrigado a se dirigir para a capital italiana. Lá, ele foi julgado durante um período de seis meses. Ao longo desse tempo, houve alguns interrogatórios e tentativas de explicação de sua parte, mas seus argumentos não foram suficientes para que não houvesse punição. Então, no dia 23 de julho, foi oficialmente decretado que seu livro Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo – Ptolomaico e Copernicano estava proibido de circular por conter blasfêmias. Ademais, Galileu seria encarcerado e precisaria repetir sete salmos semanais ao longo de três anos. Como resultado da sentença, ele passou a cumprir prisão domiciliar. De maneira geral, um dos motivos que também certamente fizeram com que a Igreja se rebelasse contra Galileu foi o fato de que, em parte de seus escritos, o audacioso cientista chegou a fazer algumas interpretações, críticas e observações a respeito da Bíblia, que eram amplamente diferentes daquelas em que a Igreja acreditava, defendia e postulava para os fiéis.

O final da vida próspera de Galileu Galilei foi bem difícil e marcado por bastante sofrimento. Em 1634, Galileu sofreu um forte abalo emocional com a morte de sua filha Virgínia, que na época tinha apenas 34 anos. Esse episódio o atingiu justamente num período no qual sua saúde estava muito comprometida. Mesmo após essa perda, embora tenha ficado imensamente entristecido, contando com a ajuda de dois discípulos chamados Vicenzo Viviani e Evangelista Torricelli, que muito admiravam o seu trabalho, que o acompanharam na velhice e ajudaram o mestre na etapa final de sua vida, finalizou o livro Discursos e demonstrações matemáticas acerca de duas novas ciências.

Com o passar do tempo, o célebre cientista italiano perdeu a visão devido ao uso excessivo que fez de seu telescópio para observações astronômicas. Seus dois fiéis discípulos contaram que Galileu Galileu deu seus últimos suspiros com o livro Discursos em suas mãos, dizendo que aquela era a obra mais significativa de toda a sua vida. Ele faleceu em 8 de janeiro de 1642, na cidade de Florença. Seu corpo se encontra até hoje na Igreja de Santa Cruz, localizada nessa mesma cidade italiana.

Depois que Galileu faleceu, algumas pessoas próximas a ele manifestaram o desejo de construir um monumento em sua homenagem. No entanto, a Igreja, através do Papa Urbano VIII, logo se mostrou contrária a essa ideia, impedindo sua concretização, ao alegar que Galileu era uma influência social nociva. Em contrapartida, o Papa João Paulo II chegou a fazer uma menção a Galileu Galilei, pedindo desculpas pelos erros, ataques e atos violentos que foram cometidos contra ele pela Igreja Católica ao longo do tempo.

Como vimos, não foi à toa que o nome de Galileu atravessou os tempos. Este ambicioso gênio era portador de uma incrível capacidade intelectual, que fez dele um verdadeiro visionário, cujas descobertas mudaram os rumos da ciência. Ele acreditava fortemente na linguagem matemática do universo e prezava pela observação e experimentação como processos indispensáveis ao método científico. Galileu contrariou corajosamente a Igreja e as normas de seu tempo por meio de suas grandiosas ideias, que estavam muito além das bases ideológicas estabelecidas no período em que viveu. Não apenas se afastou das interpretações predominantes, mas sua maneira única de examinar certos aspectos da natureza, seus métodos e experimentos científicos também o distanciaram do modelo aristotélico de mundo e, como resultado, elevaram-no para além daquilo que era comumente aceito, fazendo com que ele deixasse como legado algo novo e diferente.

Referências:

GOMES, Morgana. A vida e o pensamento de Galileu Galilei. São Paulo: Editora Minuano, 2001.

NAESS, Atle. Galileu Galilei: Um revolucionário e seu tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2015.

GALILEU, Galilei. NEWTON, Isaac. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1987. Tradução e notas: Helda Barroco, Carlos Lopes de Mattos, Pablo Rubén Mariconda, Luiz João Baraúna.


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