O LUTO COMO PRESENÇA DA AUSÊNCIA: DIÁLOGOS MEDITATIVOS SOBRE “O CORVO”, DE EDGAR ALLAN POE

Por Juliana Vannucchi e Natália Amanda

O norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849) é um dos escritores mais ilustres e influentes de todos os tempos. Na vastidão de sua obra, explorou diversos gêneros textuais, dentre os quais encontra-se a poesia e, nesse âmbito, seu poema mais famoso e mais lido é O corvo, cujo tema principal, o luto, é apresentado de maneira profunda, a partir de um clima misterioso e sobrenatural.

Poe iniciou a escrita do poema em 1844, período em que vivia na Filadélfia, e concluiu sua produção somente no ano seguinte, quando morava numa casa de fazenda nas proximidades de New York. Nesse mesmo ano, George H. Colton, o editor da revista Graham’s Magazine, comprou o poema pagando, segundo conta, somente dez dólares. Antes, porém, que Colton o publicasse, O corvo apareceu no New York Evening Mirror. A partir dessas ocasiões, algumas portas se abriram para Poe, cuja carreira literária, até então, era marcada por constantes crises financeiras e oportunidades escassas.

O Corvo é um poema que carrega uma aura de tensão e uma atmosfera mórbida. Sua história inicia-se numa noite fria de dezembro, na qual encontramos um atormentado protagonista tentando concentrar-se em suas leituras a fim de esquecer a dor causada pela perda de sua amada Lenora. Eis que, num determinado momento, ele ouve uma série de batidas nas portas e janelas e, intrigado, vai verificar do que se trata. Inicialmente dirige-se à porta e, ao abri-la, depara-se com o vazio e com a escuridão. Pensa, então, que o vento era a causa dos ruídos. No entanto, quando abre uma janela, subitamente um corvo adentra sua casa e pousa em cima de um busto da deusa grega Palas Atena. Para surpresa do protagonista, a ave começa a falar, e ela repete incessantemente a palavra nevermore (nunca mais, em português), trazendo consigo, assim, a dolorosa revelação da finitude que tange a existência e que tão comumente lança-nos em estado de desespero, medo e lamento. Essa palavra começa a gerar uma angústia quase insuportável no protagonista, de tal forma que, num determinado momento do poema, já não sabemos se ele está delirando e simplesmente enlouqueceu em decorrência dos horrores do luto enfrentado pela perda de Lenora, ou se está apenas perplexo por presenciar um fenômeno sobrenatural tão obscuro. O fato é que ave, ao repetir a palavra nevermore, esse verdadeiro mantra da morte, lembra-nos o tempo todo da separação inevitável e abissal que o cessar da vida postula entre nós e aqueles que nos rodeiam. O corvo, afinal, pousa e nada mais faz. Mas é justamente nesse gesto imóvel que reside sua força, pois assim a ave se torna testemunha daquilo que não pode ser recuperado, simbolizando, então, a imagem da perda que se torna presença e da ausência que encontra sempre, inevitavelmente, uma forma de permanecer. A viva morte se apresenta para o protagonista, dessa forma, como aquilo que continua habitando aquele que ficou.

A morte, aliás, é um dos temas mais explorados da Filosofia, sendo que, para Platão (428 a.C. – 347 a.C.), por exemplo, “filosofar é aprender a morrer”. Por sua vez, Arthur Schopenhauer (1788-1860) escreveu que a morte é a própria musa da Filosofia, de tão indissociáveis que são. Pode-se dizer, assim, que esse tema ocupa um papel nuclear na história do pensamento ocidental e, nesse contexto, seria possível citar inúmeros filósofos cujas obras e legados, de um modo ou de outro, abordam a morte. Os estoicos, por exemplo, apropriaram-se da expressão latina memento mori para fundamentar suas reflexões sobre o assunto e nos lembrar que estamos fadados a conviver com o fim. No entanto, apesar desse assunto percorrer intimamente a história da Filosofia, são somente os poetas, como Edgar Allan Poe, que, por meio de seus dons e sensibilidades, podem nos contar melhor sobre como viver a morte em plena vida. A poesia, afinal, salva a vida da morte e a morte da vida, sem abrir mão de nenhuma delas porque, no fundo, conforme os estoicos nos ensinam através de seu fascinante lema latino, ambas caminham juntas, de mãos dadas, sempre presentes.

“Ó velho corvo emigrado lá das terras infernais” / Arte: Paul R. Talbot (@paulrikkytalbot)

Um psicanalista célebre que escreveu sobre a vida, mas sobretudo sobre a morte, o luto e a melancolia, chamado Sigmund Freud (1856-1939), extraiu de suas experiências clínicas e, no caso da morte, também de suas experiências pessoais, reflexões profundas a respeito da beleza do efêmero e da dificuldade humana de suportar a dor. Ele nos lembra, nesse sentido, que, no fundo, não acreditamos em nossa própria morte. Não porque sejamos incapazes de compreender intelectualmente o fim da vida, mas porque o inconsciente não possui uma representação da inexistência, ou seja, não temos memória daquilo que seria deixar de ser; por isso, quando pensamos na morte, ainda permanecemos presentes como testemunhas daquilo que tentamos imaginar. Como afirma Freud (2010, p.181): “No fundo, ninguém acredita em sua própria morte; ou, o que é o mesmo, no inconsciente cada um de nós está convencido de sua imortalidade”. A morte, portanto, pode ser pensada, anunciada e temida, mas nunca, segundo Freud, verdadeiramente experimentada pelo próprio sujeito. Ora, mas seria, então, possível concebê-la de algum modo? Sim, mas somente por meio das formas pelas quais ela encontra lugar em nossa existência. Isso significa que é através das experiências de luto que a morte se aproxima de nós, não como uma experiência daquilo que seremos quando deixarmos de ser, mas como a marca deixada por aquilo que perdemos.

Freud, cabe dizer, respeitava os poetas e os admirava. Não buscava reduzir a poesia à psicanálise, pois sabia que, naquele território, os versos poderiam servir à sua ciência como uma forma de aproximação, mas jamais esgotariam o mistério da criação poética. A poesia não deveria, portanto, ser capturada completamente pelo conceito, pois existe nela algo que permanece irredutível, algo que escapa à explicação e que justamente por isso continua a nos tocar. Por isso, em diversos momentos, Freud recorreu à literatura a fim de iluminar suas formulações, embora não tenha se deixado conduzir pela tentação de revelar a causa última da criação artística ou transformar a obra em um sintoma de seu criador. Há uma delicadeza singular nessa postura, pois embora possuísse recursos teóricos para tentar decifrar aquilo que se apresenta na obra, Freud escolheu preservar o espaço próprio da criação poética.

A respeito dessa posição, também não pretendemos interpretar a poesia de Poe, mas apenas nos aproximar dela como quem se aproxima de um mistério. Ao observarmos a obra desse poeta, especialmente O corvo, percebemos a presença viva da morte não como um acontecimento final, mas como uma presença constante, que espreita e que anuncia a impossibilidade do retorno. A ave, portanto, não representa apenas a morte em si, mas a permanência daquilo que foi perdido. Ele carrega consigo a memória de uma ausência e a marca de alguém que já não está, mas que continua habitando inevitavelmente aquele que continua presente. Desse modo, a expressão “nunca mais” ultrapassa o campo artístico e alcança uma dimensão quase mística. Ela toca algo ancestral em nós, algo que pertence ao território das perdas que atravessam gerações. O corvo surge como uma figura que vem de um tempo remoto, daquilo que desapareceu, mas que ainda movimenta o presente – algo que ocorre sem que muitas vezes tenhamos consciência disso. Sabemos que o poema nasce da dor pela perda da amada, uma dor que o sujeito tenta conduzir para os lugares mais profundos de sua alma, mas que retorna através do símbolo. O corvo encontra, então, aquele que sofre para lembrá-lo daquilo que ele se esforça para esquecer. A perda, assim, transforma-se em palavra, ritmo e verso e a dor encontra uma forma de existir na linguagem.

Freud redigiu, em Luto e melancolia, uma das formulações mais importantes sobre a relação entre perda e subjetividade: “A sombra do objeto caiu sobre o ego” (2010, p.230). Décadas antes, porém, vimos que Poe já havia transformado em poesia essa experiência da permanência da ausência, ou seja, daquilo que continua vivo embora não esteja efetivamente presente. Nesse âmbito, escreve o poeta norte-americano, na aclamada tradução de Fernando Pessoa:

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.”

(POE, Edgar Allan. O Corvo. Tradução de Fernando Pessoa.)

Ora, talvez reconhecer que aquilo que perdemos não desaparece completamente seja um dos maiores e mais desafiadores mistérios da experiência humana. A morte física, afinal, leva um corpo, mas deixa seus vestígios; ela interrompe a presença, mas recria outras formas de existência. O luto é, desse modo, o território onde a ausência tenta habitar a vida. E a poesia é uma das formas possíveis encontradas pelo ser humano para dar corpo àquilo que já não pode ser tocado. Ela não vence a morte e não traz de volta o que foi perdido, contudo cria um lugar onde a perda pode permanecer sem ser apenas destruição, transformando, assim, o silêncio da ausência em palavra, o vazio em símbolo e a dor em possibilidade de criação. E quanto a nós? Quem são nossas Lenoras? O que, em nossas vidas, foi e não retorna? 

Referências:

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos: 1914-1916. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

POE, Edgar Allan. O corvo. Rio de Janeiro: DarkSide, 2024.


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