Por Sílvia Vannucchi
Considerado um dos maiores gênios da humanidade, homem de incomparável inteligência, Leonardo da Vinci se tornou mundialmente conhecido principalmente pelas suas famosas pinturas, como Mona Lisa e A última ceia. Porém, ele também se destacou em outras áreas do conhecimento, como engenharia, botânica, anatomia, matemática, literatura, geologia, entre outras.
Visto atualmente como um homem muito além de seu tempo, Leonardo da Vinci deixou projetos impressionantes de máquinas voadoras, sistemas de esgoto, canhão, tanque de guerra, paraquedas, escafandro e muitos outros.
A provável data de seu nascimento é 15 de abril de 1452, na Itália, numa localidade perto de Florença, chamada Vila de Vinci, que originou seu sobrenome. Filho de Piero da Vinci e de uma jovem camponesa, Caterina Lippi, de certa forma teve sorte por eles não serem casados, pois se fossem, provavelmente ele acabaria seguindo os passos do pai, por tradição, e exerceria a mesma função dele, de tabelião.
Pouco se conhece a respeito de sua infância. Não recebeu instrução formal, frequentando somente uma escola de ábaco, isto é, que transmitia conhecimentos matemáticos que seriam de utilidade no comércio. Algumas fontes mencionam que foi criado pelo pai que, ao perceber o talento de Leonardo, na adolescência o enviou como aprendiz ao famoso pintor Andrea del Verrocchio, que vivia em Florença.
No ateliê de seu mestre, o jovem Leonardo ia se aperfeiçoando cada vez mais em suas técnicas e estudos. Nessa época, contava cerca de 14 anos de idade e era um rapaz realmente muito bonito. Dizem que serviu de modelo para Verrocchio esculpir uma impressionante estátua de bronze de Davi.
Como discípulo, Leonardo colaborou com o mestre na pintura da obra O batismo de Cristo. Sua habilidade era tão incrivelmente visível que contam que Verrocchio, ao se ver ultrapassado em talento pelo aprendiz, decidiu parar de pintar. Em 1472, Leonardo tomou parte, como mestre, da Corporação dos Pintores de Florença, mas mesmo assim continuou frequentando o ateliê de Verrocchio, muito provavelmente atuando como seu assistente.
Já um pouco mais velho, da Vinci foi acusado de manter relações sexuais com um belo jovem chamado Jacopo Saltarelli, um prostituto de apenas 17 anos. Mas não havia provas suficientes a respeito e ele acabou sendo absolvido dessa acusação, que tinha como condenação, na época, a pena de morte. No fim da década de 1470, deu início à pintura A adoração dos magos, óleo sobre madeira, que tinha sido encomendada pelos monges da Igreja de São Donato de Scopetto, em Florença, e que não foi terminada. Na verdade, Leonardo estava sempre em busca de uma nova técnica ou algo parecido e, assim que atingia seu objetivo ou satisfazia sua curiosidade, não se interessava mais pela obra. Por essa razão, as pessoas em Florença ficavam hesitantes quanto a encomendar uma obra do artista, pois sempre existia o risco de ela não ser finalizada.

Em 1482, Leonardo da Vinci foi para Milão, centro cultural da época. Foi enviado para lá por Lourenço, o Magnífico, da família dos Médici, que ocupava o cargo de governador de Florença.
Em Milão, trabalhou para Ludovico Sforza, duque da cidade, para quem, primeiramente, exerceu a função de produtor de espetáculos. Foi nessa cidade que pintou a Última ceia, uma de suas obras mais conhecidas e aclamadas. Em tal período, estava sempre acompanhado por Andrea Salai, jovem que se tornou seu aprendiz e de quem, ao longo da vida, fez inúmeros desenhos. Com o tempo, Leonardo se tornou um artista respeitado, apesar de sua fama de atrasar a finalização de suas produções, ou até mesmo de não as finalizar.
Foi em Milão, mais uma vez, que isso aconteceu, embora, nesse caso, a obra tenha ficado inacabada por culpa do destino, e não de Leonardo. Ludovico Sforza encomendou ao artista um gigantesco monumento de um cavalo, que teria cerca de 8 metros de altura e que seria feito de bronze. Com esse pedido, Ludovico queria homenagear seu pai, pois no dorso do cavalo estaria a figura de um nobre cavaleiro, que seria o finado duque Francesco Sforza. Leonardo, que apreciava muito o estudo de anatomia, após esse pedido de Ludovico, passou a pesquisar com afinco a anatomia dos cavalos, chegando até a fazer dissecações desses animais. Todo resultado de suas investigações sobre o assunto ele registrava em seu caderno de anotações. Porém, como já havia acontecido outras vezes, acabou tendo, por certo tempo, sua atenção voltada para outros projetos, até que, em 1493, expôs uma versão de argila do grande monumento equestre, o que lhe rendeu elogios. Enquanto Leonardo planejava uma forma eficiente de fundir o bronze a partir do molde, algo aconteceu: Milão foi tomada pelos franceses e todo o bronze que havia sido guardado para a escultura do cavalo acabou sendo usado para a construção de canhões. Infelizmente, não foi possível deter as tropas francesas, que acabaram conquistando Milão no ano de 1499.
Leonardo então, sempre acompanhado de Salai, seguiu para Veneza e, em seguida, retornou à Florença, em 1500. Ali, em 1503, produziu Mona Lisa, sua obra mais popular, também chamada de La Gioconda.
Mais uma vez, o artista acabou deixando um trabalho iniciado na igreja Santissima Annunziata. Ele já havia recebido parte do pagamento e, embora lhe pedissem de volta a quantia paga, ficou com o dinheiro.
No ano de 1506, retornou para Milão, quando a cidade ainda era ocupada pelos franceses, sempre acompanhado de Salai e, dessa vez, por outro jovem, chamado Francesco Melzi, a quem tomou como filho adotivo. Melzi era ainda um menino e foi adotado por Leonardo com o consentimento do pai do garoto, que já há algum tempo era amigo do grande artista. O pai via nessa adoção uma chance de o filho ter uma vida segura e repleta de aprendizado ao lado do mestre. É possível que Salai tenha sido amante de Leonardo, mas provavelmente o mesmo não aconteceu em relação a Melzi, a quem o artista parecia querer mesmo como a um filho. Leonardo permaneceu em Milão até 1513 e, em seguida, foi para Roma, onde permaneceu por certo tempo.
Como já havia se tornado muito conhecido, sua fama chegou até Francisco I, soberano da França, que o convidou para viver nesse país. Lá, em 1516, Leonardo da Vinci se instalou numa residência próxima a Amboise, recebendo o título de pintor, arquiteto e mecânico real.
Em 1519, sentindo-se fraco e doente, com paralisia numa das mãos, como sequela de problemas de saúde, providenciou seu testamento. Entre seus herdeiros estava Melzi, que ficou com inúmeras páginas contendo anotações e desenhos do grande artista. Leonardo faleceu no mesmo ano, no dia 2 de maio. Tinha 67 anos de idade. Consta que foi enterrado na igreja de Chateau d’ Amboise, que chegou a ser demolida por volta do começou do século XIX. Muitos anos depois, restos mortais, possivelmente de Leonardo da Vinci, foram encontrados no local e levados até a Capela de Saint-Hubert, localizada na parte externa do Castelo de Amboise.
Curiosidades:
Leonardo da Vinci possuía grande beleza física: era forte, musculoso e seus cabelos eram loiros e cacheados. Era elegante e carismático. Não bastasse isso, era um homem simpático e generoso, o que fazia com que tivesse muitos amigos. Como amava os animais e a natureza, era vegetariano. Além disso, outras duas características do gênio se destacam: era extremamente observador e curioso. Para ele, era necessário observar em etapas tudo o que estivesse ao seu redor, assim nenhum detalhe seria perdido. Tais características, tão típicas dele, ajudaram-no a se tornar um artista extremamente hábil em captar com perfeição o movimento de um único instante e transferi-lo primorosamente para a tela, por meio de talentosas pinceladas.
Sentia-se atraído por homens e encarava isso com muita naturalidade e serenidade. Botticelli e Michelangelo, artistas da mesma época, conforme apontam inúmeras evidências também mantiveram práticas homossexuais.
A homossexualidade de Leonardo, no entanto, não foi obstáculo para conseguir retratar com grande sensibilidade figuras de mulheres, captando o que ia na alma delas. Aliás, ao retratá-las, ele deu início à pose de três quartos, afastando-se do perfil, que era o padrão seguido na época.
Ele não se importava em chamar a atenção dos outros. Quando tinha mais ou menos 50 anos e morava em Florença, gastava enormes quantias com roupas e livros. Costumava vestir-se de forma pouco comum, excêntrica até, muitas vezes com uma túnica cor de rosa de comprimento na altura dos joelhos. Quanto aos livros, que nessa época já eram muitos, possuía obras de assuntos de seu interesse, como anatomia, medicina, matemática e até edições de fábulas de Esopo. Aliás, Leonardo também nos deixou algumas fábulas de sua autoria.
Transpunha para suas obras todas as coisas que observava e aprendia, e por possuir grande conhecimento de anatomia, pois chegou a praticar a dissecação de cadáveres, retratava o corpo humano de uma forma perfeita e harmônica.
Leonardo tinha o costume de fazer constantes anotações sobre tudo que observava e imaginava. Estava sempre pronto para mais um registro e, ao todo, restaram cerca de 7 mil páginas de escritos e esboços.
Um fato interessante é que ele não tinha o hábito de colocar datas em sua cadernos e, numa única página, fazia anotações das mais variadas. Inclusive, voltava às páginas já escritas há muito tempo e nelas, em um espaço em branco qualquer, aproveitava para fazer um novo registro. Graças a essas anotações, podemos hoje conhecer mais sobre sua genialidade.

Quando Melzi, que herdou sua cadernos, morreu, esses registros acabaram se perdendo aos poucos, ficando espalhados em locais diferentes. Mais tarde, o escultor Pompeo Leoni conseguiu reunir o que foi possível e dividiu os vários cadernos de Leonardo de acordo com o tema: engenharia, anatomia, etc. Com o passar dos anos, esses manuscritos passaram de mão em mão, até que foram comprados por Bill Gates, por uma quantia inimaginável.
Em seus registros, Leonardo tinha por costume utilizar a chamada “escrita especular”, ou seja, da direita para a esquerda. A provável razão para isso seria o fato de que ele era canhoto e, por meio desse tipo de escrita, evitava borrões.
Uma técnica muito usada pelo grande artista foi o sfumato, palavra de origem italiana que significa “evaporar como fumaça”. A técnica consiste em pintar bordas e contornos, dando aspecto esfumaçado, sem enfatizar esses contornos.
Leonardo da Vinci, com todo seu brilhantismo, em certa ocasião chegou até a inventar uma máquina que se tornou muito famosa: um leão mecânico que, conforme se movimentava, abria o peito e derrubava lírios pelo chão. Fontes dizem que essa incrível espécie de robô pode ter sido feita para a diversão do rei Francisco I, na ocasião de uma festa. O invento se perdeu como passar do tempo, porém, a partir de desenhos do projeto, deixados por Leonardo, engenheiros acabaram conseguindo construir uma réplica dessa invenção.
Obras mais conhecidas:
Leonardo da Vinci também se dedicou imensamente ao desenho, visto como espécie de estudo preliminar para a pintura e a escultura. No entanto, são suas pinturas que o tornaram tão conhecido e admirado. Entre elas, estão Retrato de um músico, Dama com arminho, A Virgem dos rochedos, A anunciação, A última ceia, Mona Lisa e muitas outras.
A última ceia:
Produzida entre 1495 e 1498, a obra possui cerca de 4,5 metros de altura e aproximadamente 9 metros de largura.
Trata-se de um afresco feito a pedido de Ludovico Sforza para adornar o refeitório do Convento de Santa Maria Delle Grazie, em Milão.
A cena nos mostra o exato instante em que Jesus, reunido com seus discípulos para uma última refeição, anuncia que será traído por um deles. Enquanto o semblante de Cristo se mantém sereno, é possível perceber, ao observar gestos e movimentos, a indignação e intensa agitação dos discípulos, que estão separados em grupos de três.

Infelizmente, essa grande obra sofreu deterioração muito rapidamente, pois Leonardo pintou em uma superfície seca, e não úmida, como deveria ser. Ao longo dos anos, houve diversas restaurações, sem grande sucesso.
Em 1652, os monges do local resolveram abrir uma porta logo abaixo do afresco e, ao quebrar a parede, cortaram a parte da obra que mostrava os pés de Jesus.
Hoje é impossível pensar em Leonardo da Vinci sem, imediatamente, associá-lo a essa grande produção artística.
Mona Lisa ou La Gioconda:
Óleo sobre madeira, a pintura foi iniciada em 1503. Não possui grandes proporções, medindo mais ou menos 77 centímetros por 43 centímetros.
Embora muitos acreditem em um mistério acerca da figura retratada nessa obra, alguns até chegando a crer que a imagem poderia representar o próprio Leonardo da Vinci, a mulher dessa pintura era provavelmente Lisa Del Giocondo.
Lisa era a jovem esposa de Francesco Del Giocondo, um comerciante de seda que residia em Florença. Francesco comissionou o retrato de sua esposa quando ela tinha aproximadamente 24 anos de idade.

A obra, conhecida também por La Gioconda, tem como maior destaque o sorriso e os olhos da moça. O sorriso, embora discreto, parece exprimir uma real felicidade e satisfação. Dizem que Leonardo, enquanto estava fazendo este retrato, mantinha no ambiente algumas pessoas que brincavam e faziam graça, a fim de provocar o sorriso da modelo Lisa.
Outro ponto bastante interessante são os olhos, retratados de tal forma que, ainda que o observador do quadro se mova para os lados, tem a nítida impressão de que os olhos penetrantes de Mona Lisa o estão seguindo.
Embora iniciada em 1503, quando Leonardo se mudou para Milão, levou a pintura com ele e, até 1517, ainda, por vezes, acrescentava pinceladas à obra.
Mona Lisa foi levada aos EUA em 1963, ficando exposta durante quase um mês no museu de arte da cidade de Nova Iorque. Mais tarde, em 1974, passou por Tóquio, no Japão, e Moscou, na Rússia. Essas foram as únicas vezes em que a obra deixou o museu do Louvre, em Paris, onde permanece até os dias de hoje.
Homem vitruviano:
Feito em 1490, não é uma pintura de Leonardo, mas sim um desenho muito conhecido, que mostra um homem nu com proporções totalmente harmoniosas. Suas pernas e braços estão abertos dentro de um círculo e de um quadrado sobrepostos.
Leonardo da Vinci se baseou em uma obra de Marcos Vitrúvio Polião, arquiteto romano que viveu no século I a.C., que queria mostrar as perfeitas proporções do corpo humano. Esse desenho, em que arte e ciência se misturam, está de pleno acordo com a época em que foi feito, o Renascimento, pois coloca o homem numa posição de importância diante do mundo.

O Homem vitruviano encontra-se atualmente na Galleria dell Accademia, em Veneza, na Itália.
Conforme vimos, Leonardo da Vinci foi um homem curioso e de talento único. Suas ideias foram visionárias e seu legado é de grande riqueza, já que ele era polímata, isto é, estudioso de diversas áreas do conhecimento. Assim, deixou não somente produções artísticas fascinantes, mas ainda incríveis ideias e invenções. Não é à toa que alguns o consideram o maior gênio de todos os tempos.
Referência:
ISAACSON, Walter. Leonardo da Vinci. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.
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