Por Sílvia Vannucchi
“A finalidade da vida é o autodesenvolvimento. Desenvolver plenamente a nossa personalidade, aí está a missão que cada um de nós deve cumprir”. (Oscar Wilde)
Oscar Wilde é considerado um dos mais célebres escritores do século XIX. Autor de um único e famoso romance, O retrato de Dorian Gray, também escreveu poemas, ensaios, contos e peças teatrais, com uma linguagem bastante característica, constantemente mordaz e inteligente, repleta de críticas à hipocrisia da sociedade vitoriana, sempre preocupada em manter as boas aparências.
Irlandês, Oscar nasceu numa família protestante, em Dublin, no ano de 1854, filho de William Robert Wilde, cirurgião renomado, e Jane Francesca Wilde, uma mulher excêntrica, amante da cultura irlandesa e das artes em geral, especialmente literatura, e que chegou, inclusive, a escrever poemas.
Oscar Wilde teve dois irmãos: Willie, o mais velho, de quem nunca foi muito próximo, e Isola, mais nova que ele e que faleceu quando ainda era criança. Além disso, teve ainda um meio-irmão e duas meias-irmãs por parte de pai, frutos de um relacionamento fora do casamento.
Wilde estudou em instituições como o Trinity College, em Dublin, e Universidade de Oxford, na Inglaterra, sempre se destacando como excelente aluno.
Em Oxford, fez muitas amizades, impressionando a todos com sua afiada inteligência, seu bom humor, carisma e sua grande dose de sarcasmo, que foi uma de suas marcantes características literárias. Também chamava a atenção devido à aparência singular: Wilde era bastante alto, seus cabelos eram escuros, tinha olhos doces, voz agradável e vestia-se como um dândi, de modo totalmente elegante e impecável, trajando meias de seda, calças até os joelhos, sapatos refinados e camisas de cores fortes e tecidos nobres.
Perdeu o pai em 1876, ano em que começou a escrever poemas, chegando inclusive a ganhar um concurso de poesia promovido pela Universidade de Oxford.
Já bem conhecido em seu meio, foi convidado para fazer uma série de conferências nos Estados Unidos, no Canadá, na Escócia e também na própria Inglaterra.

Wilde era adepto do Esteticismo, um movimento artístico do século XIX, que, em suma, colocava a estética acima de temas sociais e políticos. Seu lema era “arte pela arte”, ou seja, a finalidade da arte seria provocar o prazer estético. Para Oscar, desse modo, uma obra de arte não deveria ter finalidade moralizante ou pedagógica, mas tinha como objetivo essencial a busca pelo belo, que seria até mesmo uma verdadeira salvação para as dificuldades e desafios da existência humana.
Casou-se em 1884 com Constance Llyod, com a qual teve dois filhos, Cyril, nascido em 1885, e Vyvyan, nascido em 1886. Antes de conhecê-la, no entanto, apaixonou-se pela belíssima Florence Balcombe que, curiosamente, não quis engatar nenhum romance com Oscar Wilde porque estava interessada em outro célebre escritor irlandês, com o qual viria a se casar: trata-se de Bram Stoker, autor de Drácula, um dos livros mais icônicos e sombrios de todos os tempos.
Ainda em 1886, Oscar Wilde conheceu Robert Ross, com quem teve seu primeiro relacionamento homossexual. Robbie, como o chamava, seria um amigo leal durante toda a vida do escritor, estando por perto nos momentos mais significativos da vida de Oscar, inclusive no dia da morte do autor.
Em 1888, Oscar Wilde publicou O príncipe feliz e outros contos, cujas cativantes histórias foram criadas especialmente para entreter seus pequenos filhos e, em 1891, veio sua grande obra-prima: O retrato de Dorian Gray, seu único romance. O livro, que é o mais conhecido do escritor, traz como personagem um jovem de extrema beleza, Dorian Gray, sua crescente obsessão pela própria aparência e consequente decadência moral. É um livro fascinante, que carrega interessantes reflexões e questionamentos, sendo que sua abordagem acerca do desejo de permanecer eternamente jovem e manter a beleza física faz parte do mundo contemporâneo, pois sabemos que há hoje quem faça verdadeiras loucuras com o intuito de preservar a juventude e manter-se sempre belo.

Rejeitada e tida como imoral na época de sua publicação, a obra O retrato de Dorian Gray é hoje considerada um precioso tesouro literário e continua atraindo um grande número de leitores. No prefácio do livro, Oscar Wilde diz: “Um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.”
Um ano após essa tão importante publicação, Oscar Wilde conheceu um jovem de apenas 21 anos, chamado Lord Alfred Douglas, aspirante a poeta e filho do respeitado Marquês de Queensberry.
O autor de Dorian Gray e Bosie, apelido de Alfred Douglas, logo iniciaram um relacionamento polêmico e conturbado, apesar de Oscar ser casado. Alegando que o filho estava sendo seduzido por um homem mais velho, o Marquês de Queensberry tentou de todas as formas separar os dois amantes, até que, finalmente, conseguiu que Oscar Wilde fosse julgado por práticas homossexuais que a Inglaterra, na época, condenava. Embora os amigos mais próximos de Oscar constantemente o aconselhassem a fugir da Inglaterra para se poupar de uma futura condenação, ele se recusou a fazer isso e, em 1895, acabou condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados.

A maior parte da pena foi cumprida na prisão de Reading, na qual foi permitido que ele tivesse acesso a material para que pudesse escrever. Sendo assim, aos poucos, Oscar redigiu sua conhecida e admirável obra De profundis, que nada mais é do que uma extensa carta dirigida a Bosie, em que o escritor demonstra muita dor, angústia e sofrimento diante dos acontecimentos, acabando por fazer uma profunda e humilde reflexão acerca de suas próprias atitudes.
Durante o tempo em que ficou preso, o escritor irlandês teve sua saúde abalada devido aos inúmeros trabalhos forçados com os quais não estava acostumado, má alimentação e péssimas acomodações. Também teve um sério problema em um dos ouvidos, precisando passar um bom tempo em tratamento na enfermaria da prisão. Infelizmente, não recebeu os cuidados adequados, o que lhe resultou na saúde deteriorada pelo resto da vida.
Não bastassem todas essas dificuldades, Oscar Wilde perdeu sua mãe em 1896, fato que o deixou muito abalado. E não era apenas isso: a saudade dos filhos também o consumia, pois sempre havia sido um pai dedicado e carinhoso.
Sua pena acabou, finalmente em 1897. Agora, via-se rejeitado pela sociedade que antes o aplaudia com entusiasmo e estava abandonado por muitos que outrora se diziam amigos. Dessa forma, mudou-se para a França, local em que terminaria seus dias.
Instalado em uma pequena cidade litorânea, Berneval-sur-mer, redige A balada do cárcere de Reading, poema em que expressa os horrores da prisão, sendo uma espécie de crítica ao sistema prisional da época, além de relatar as fortes e terríveis impressões que lhe causaram assistir à triste execução de um prisioneiro.
Nessa fase de sua vida, os poucos amigos que lhe restavam o aconselhavam a não reatar com Bosie, pois o relacionamento entre eles sempre havia sido complicado devido ao difícil temperamento do rapaz e da instável situação de Oscar, agora, bastante delicada, porque ele enfrentava dificuldades financeiras e estava com a saúde muito fragilizada.
Oscar Wilde, entretanto, não resistiu aos seus sentimentos, e ele e Bosie voltaram a se encontrar. O pai do jovem, porém, sabendo da reaproximação entre eles, cortou a mesada do filho e, em meio a grandes problemas financeiros, Bosie finalmente abandonou Oscar Wilde de uma vez por todas.
Em 1898, uma notícia entristece e comove o escritor irlandês: Constance, pela qual sempre sentira uma real afeição, havia falecido, e seus dois filhos, que tiveram o sobrenome alterado para Holland, devido ao escândalo envolvendo o pai, passaram a viver sob os cuidados de parentes por parte da mãe. Oscar nunca mais os viu.
De volta a Paris, o escritor entregou-se a uma vida desregrada, bebendo com grande frequência, e precisou se submeter a uma cirurgia devido aos problemas que tinha no ouvido. Após o procedimento, ficou extremamente fragilizado e, após um tempo acamado e depois de muita agonia, faleceu no quarto do hotel em que estava vivendo, no dia 30 de novembro de 1900, aos 46 anos de idade. A causa provável de sua morte foi uma meningoencefalite.
Não muito antes de falecer, confessou ao fiel amigo Robert Ross, que estava sempre a seu lado: “Algo morreu assassinado em mim. Não sinto mais nenhum desejo, nem mesmo o de escrever. É evidente que o primeiro ano que passei na prisão destruiu meu corpo e minha alma”.
Poucas pessoas acompanharam o cortejo do escritor irlandês, e Bosie estava entre os presentes. Chegaram coroas e flores para homenagear Oscar Wilde, sendo uma delas em nome de seus filhos.
Oscar deixou ao mundo uma herança literária extremamente valiosa. Além de seu consagrado romance O retrato de Dorian Gray, O príncipe feliz e outros contos, De profundis e A balada do cárcere de Reading, escreveu inúmeras grandes obras, entre elas O fantasma de Canterville, de 1887, uma narrativa cômica em que critica os costumes e tradições tanto dos americanos quanto dos ingleses; Salomé, de 1893, uma peça teatral que retrata uma passagem bíblica, sendo, por isso, vetada em sua estreia na Inglaterra e sendo encenada apenas em 1896, na França; A importância de ser prudente, outra peça que estreou em 1895 e que ironiza a alta sociedade e sua mania de manter as falsas aparências. O notável autor nos presenteou com um legado literário vasto, importante e ainda hoje aclamado.

Um de seus filhos, Cyril, faleceu aos 29 anos, durante a Primeira Guerra Mundial. O outro herdeiro de Oscar Wilde, Vyvyan, faleceu somente em 1967, aos 80 anos, e teve, por sua vez, um filho, chamado Marlin Holland, biógrafo inglês que realizou e organizou inúmeras pesquisas sobre seu famoso avô, que se transformaram em diversos livros. Foram 30 anos dedicados ao estudo de cartas e manuscritos de Oscar Wilde. Isso fez com que Holland se tornasse uma das maiores referências no que diz respeito à vida e estudos gerais da obra do incomparável escritor. Além disso, o próprio Vyvyan também chegou a escrever um livro no qual resgata memórias de sua infância e descreve Oscar Wilde como um pai atencioso e amoroso.
Os restos mortais do inesquecível autor irlandês estão no famoso cemitério Père Lachaise, em Paris, sob um imponente monumento do escultor Jacob Epstein, que representa uma esfinge alada, tendo ele escolhido esse tema em razão do poema A esfinge, uma conhecida composição de Oscar Wilde. Ainda hoje, diariamente inúmeros admiradores visitam o túmulo do brilhante escritor a fim de lhe prestar as merecidas homenagens.
Referências bibliográficas:
ELLMANN, Richard. Oscar Wilde. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
HOLLAND, Vyvyan. Oscar Wilde – Vidas literárias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
SCHIFFER, Daniel. Oscar Wilde. Porto Alegre: L&PM, 2010.
SUTHRLABD, John. Uma breve história da literatura. Porto Alegre: L&PM, 2022.
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