Por Juliana Vannucchi
Hipátia (ou Hipácia) de Alexandria foi uma das intelectuais mais incríveis que já existiram. O que se conhece a seu respeito provém de documentos antigos, especialmente dos registros realizados por seu discípulo Sinésio de Cirene. Infelizmente, no entanto, não há muitas informações sobre sua vida, embora haja consenso e certeza a respeito de que ela foi uma mulher muito culta e isso proporcionou um grande reconhecimento dentre seus conterrâneos e um profundo impacto no período em ela viveu. Sabe-se que Hipátia obteve grande destaque em várias áreas do conhecimento, tais como a matemática, a filosofia e a astronomia e que ministrou aulas em todas essas áreas. Na sua época, poucas mulheres tomavam o rumo intelectual que ela trilhou. Nesse sentido, podemos dizer que sua vida foi um tanto diferente da vida da grande parte das mulheres do mundo antigo que se destacou, sobretudo, por sua primorosa erudição: “Hipácia era uma mulher excepcional e, por incrível que pareça, conseguiu ser filósofa numa época em que mulheres e filósofos não gozavam de muita consideração” (CRESCENZO, 2006, p. 39).

Hipátia nasceu em aproximadamente 370 d.C., na próspera cidade de Alexandria, localizada no Egito, no delta do Nilo, e que foi fundada pelo conquistador Alexandre, o Grande, em aproximadamente 330 a.C. Esse local foi um grandioso polo cultural do mundo antigo e abrigou uma biblioteca muito conhecida, chamada Biblioteca de Alexandria, que abrigava um acervo extenso sobre temas amplamente diversificados. Hipátia era filha de um homem chamado Theon, que foi um importante e respeitado matemático, astrônomo e filósofo de Alexandria e que, certamente, exerceu influência no desenvolvimento intelectual da filha. Ela, inclusive, contribuiu em alguns livros escritos por seu pai, embora se acredite que ela mesma tenha escrito livros de sua própria autoria. Infelizmente, no entanto, seus escritos se perderam com o tempo, ainda que geralmente se considere que alguns importantes comentários sobre matemática e também a respeito de alguns matemáticos renomados como Euclides e Ptolomeu tenham sido registrados por ela.
Hipátia se aproximou muito do neoplatonismo e do neopitagorismo, duas correntes de pensamento que reacendiam estudos sobre a filosofia de Platão e do pré-socrático Pitágoras. Aparentemente, também nutria interesse pela obra do filósofo Plotino, embora não haja consenso sobre isso, e foi influenciada pelos estoicos e cínicos. Além desses conhecimentos de cunho filosófico, vale endossar que ela era extremamente hábil com os números e é considerada a primeira matemática da história.
Sabemos que as aulas ministradas por Hipátia eram frequentadas tanto por alunos pagãos quanto cristãos – sendo ela própria pagã. Além disso, parte de seus alunos eram pessoas de boa condição financeira, muitas vezes próximas de membros do governo. E ela não apenas lecionava, como também dava palestras sobre temas diversos, sendo que muitas vezes realizava essas atividades em locais públicos, ainda que existam relatos de que também dava aulas em sua própria casa. Hipátia era, aliás, muito admirada e querida por seus alunos, que tinham um grande respeito por ela. Um deles, chamado Sinésio de Cirene, com o qual ela trocou correspondência, registrou que sua tutora teria criado um hidrômetro e um astrolábio. No entanto, há quem diga que, na verdade, ela não foi a autêntica criadora desses instrumentos, mas que com muita destreza conseguiu construir os dois, ou ainda, conforme algumas fontes, teria simplesmente sido respeitosamente consultada para que tais artefatos fossem construídos.
Pelo que se sabe, Hipátia de Alexandria conservou sua virgindade até o final de sua vida. Um fato interessante é que, certa vez, ao ser questionada sobre o porquê de nunca ter se casado, ela prontamente respondeu que era casada com a verdade. Há uma outra história sobre a pensadora de Alexandria que se tornou bem conhecida. Ela era uma mulher inteligente, carismática e também muito bela. Certa vez, um de seus alunos acabou se apaixonando por ela e Hipátia, sabendo dos sentimentos do rapaz, numa ocasião, entregou a ele um pano sujo com seu sangue menstrual, perguntando ao jovem se gostava daquilo e lhe garantindo que ali não havia nenhum tipo de beleza.

Outra situação que marcou muito a história de Hipátia de Alexandria foi sua morte, que foi trágica e violenta. Em 415 d.C., no mês de março, ela, aos 40 anos, estava andando numa charrete pelas ruas de sua cidade natal, quando, de repente, foi abordada por um grupo de cristãos que a levaram para dentro de uma igreja, na qual a pobre moça foi despida e cruelmente torturada, tendo seu corpo dilacerado e despedaçado com pedaços de cerâmica – ou com conchas de ostras afiadas, conforme citam algumas fontes. Após essa brutalidade sanguinária, as partes que restaram de seu corpo foram atiradas numa fogueira. Esse terrível ato teria sido motivado por questões religiosas e políticas, mas não se sabe ao certo quais foram as verdadeiras motivações por trás desse ataque, embora tenha-se conhecimento de que Hipátia sustentava uma amizade com o judeu Orestes, prefeito de Alexandria, que era grande desafeto de Cirilo, bispo de Alexandria. Conforme comenta Luciano de Crescenzo (p. 40): “Na verdade, no que dizia respeito ao povo, a verdadeira acusação era a de não se ter portado como verdadeira mulher, isto é, de ter ensinado numa escola pública no lugar de um homem em vez de ter ficado em casa cuidando da tarefas domésticas”.
Embora não tenhamos tantas informações sobre sua vida e seus feitos, o que sabemos a respeito de Hipátia é suficiente para que a consideremos como uma das mulheres mais célebres de toda a história. Mesmo com a carência de detalhes biográficos, seu nome atravessou o tempo, tornando-se lendário, e ela continua sendo muito influente, existindo, inclusive, até mesmo revistas feministas com o seu nome. Hipátia também serviu de inspiração para alguns pintores e houve até mesmo uma adaptação cinematográfica sobre a vida dessa ilustre mulher. Em 2009, foi lançado o filme espanhol Alexandria, que narra a história de Hipátia.
Referências:
CRESCENZO, Luciano de. História da filosofia medieval. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
COELHO, Alexandra Lucas. O espelho de Hipátia. https://www.publico.pt/2009/12/30/culturaipsilon/noticia/o-espelho-de-hipatia-248062> Acesso em 25/09/2019.
GOMES, Vanessa. A vida de Hipátia de Alexandria. <http://mulheresnamatematica.sites.uff.br/wp-content/uploads/sites/237/2018/06/A-Vida-de-Hip%C3%A1tia-de-Alexandria.pdf>.
SERBAN, Anne. Hypatia of Alexandria. <http://kobotis.net/math/MathematicalWorlds/Fall2016/131/Biography/Hypatia.pdf> Acesso em 22/09/2019.
OLIVEIRA, Loraine. Vestígios da vida de Hipácia de Alexandria. <file:///C:/Users/julia/AppData/Local/Temp/230301-70350-1-PB-1.pdf> Acesso em 22/09/2019.
<file:///C:/Users/julia/AppData/Local/Temp/230301-70350-1-PB.pdf>
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