OS VAMPIROS DE VOLTAIRE

Por Juliana Vannucchi

Voltaire, um dos pensadores mais ilustres de todos os tempos, teve sua trajetória especialmente marcada pelas incansáveis lutas que travou contra a intolerância, o fanatismo e a superstição. Segundo o filósofo francês, a razão e o pensamento seriam, nesse âmbito, vias capazes de libertar o homem do medo e da opressão. Afinal, para Voltaire, onde a razão reina, a sabedoria prevalece. Consequentemente, a tolerância passa a ser exercida e, em contrapartida, o fanatismo e a intolerância, ambos atrelados à ignorância, perdem espaço. 

Tingido por um tom de sarcasmo e por uma escrita provocativa, surpreendentemente há, no Dicionário Filosófico (1764) de Voltaire, um verbete dedicado a vampiros. Em sua abordagem, o filósofo francês menciona alguns relatos folclóricos a respeito dessas entidades e discorre sobre como elas passaram historicamente a compor o imaginário popular europeu; porém, Voltaire foca principalmente em apresentar ao leitor uma visão irônica a respeito do assunto, ao afirmar que agiotas, financistas e negociantes é que são os verdadeiros sugadores de sangue que tomam conta de nosso mundo, atacando e enfraquecendo sociedades que estão sempre expostas aos perigosos que nada têm de sobrenatural: “Esses sugadores de verdade não moravam em cemitérios, mas em palácios agradabilíssimos” (2020, p. 1445). Voltaire ainda alega que, sobretudo, os monges é que são os verdadeiros vampiros, pois de acordo com o filósofo francês, eles “comem às custas dos reis e dos povos” e, desse modo, sugam a população, deixando-a carente, enfraquecida e defasada.

Imagem: Creep Your Socks Off (Instagram).

Ademais, Voltaire tece críticas a pessoas e autoridades que em pleno século das luzes insistem em validar e disseminar perspectivas místicas e supersticiosas acerca de vampiros. Também o espanta que, por vezes, algumas pessoas cheguem até mesmo a cometer atos irracionais como, por exemplo, vasculhar túmulos e queimar o coração de indivíduos já falecidos por suspeitar que sejam vampiros. Surpreende-o que até mesmo a Universidade de Sorbonne tenha se envolvido com histórias desse gênero e até mesmo aprovado uma obra a respeito do assunto.

Certamente, para Voltaire, é mais valioso e decente nos atermos à nutrição e cuidados em relação aos estados do corpo e da alma dos mais necessitados ao invés de nos ocuparmos com narrativas fantásticas e sombrias sobre entidades vampirescas. Muitas vezes, afinal, o pesadelo e o horror residem na realidade mais próxima de nós. O brilhante Voltaire, portanto, de um modo geral aborda o tema sobretudo a partir de um viés simbólico e notavelmente sagaz, sugerindo que nossas vidas e energias podem estar sendo retiradas de nós por instituições de poder e pessoas que nos rodeiam. Desse modo, seu enfoque em relação ao tema não é centrado num olhar místico, sobrenatural e tampouco supersticioso em relação ao assunto. E quanto a você? Quais são os vampiros que o estão drenando?

Referência bibliográfica:

VOLTAIRE. Dicionário filosófico. Trad. Ivone C. Benedetti. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2020.


Comentários

One response to “OS VAMPIROS DE VOLTAIRE”

  1. Avatar de Eduardo Orsini
    Eduardo Orsini

    E pensar nos grandes vampiros que temos nos dias atuais…

    Excelente texto!👏👏☕️🖤

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