JULGAMOS A BARBÁRIE DO HOMEM SELVAGEM E NOS CEGAMOS PARA A NOSSA: A VISÃO CRÍTICA DE MONTAIGNE A RESPEITO DO HOMEM EUROPEU DE SEU TEMPO

Por Juliana Vannucchi

Michel de Montaigne (1533-1592) foi um dos mais notáveis pensadores franceses. Sua obra magna chama-se Ensaios e foi publicada pela primeira vez em 1580, na cidade de Bordeaux. Nela, o filósofo medita a respeito de diversos temas, como a morte, o medo, a solidão, a consciência, a idade e outros assuntos. E dentre tantas reflexões, uma das mais interessantes feitas por Montaigne ao longo desse precioso livro é a respeito dos canibais que, no caso, são os índios brasileiros. Na época desse escrito, a Europa vivia o deslumbre e as diversas consequências das descobertas e da colonização dos novos continentes, entre os quais se encontrava a França Antártida, uma colônia francesa localizada na Baía do Rio de Janeiro. Montaigne teve contato com um viajante que viveu no “novo mundo” durante cerca de dez ou doze anos e esse fato inspirou as meditações filosóficas do ensaio em questão.

Em várias passagens de seu texto sobre os índios brasileiros, Montaigne denuncia a hipocrisia dos europeus ao notar que a civilização europeia é, na realidade, menos “civilizada” e mais “selvagem” do que os indígenas, condenando e discordando enfaticamente do julgamento precipitado que o homem europeu fazia a respeito dos índios. Nesse contexto, ele menciona, por exemplo, que os maiores esforços feitos por parte do homem civilizado não chegam sequer perto das proezas e belezas que surgem espontaneamente da natureza. Nesse caso, não haverá, portanto, prédio, casa, arranha-céu, praça ou qualquer outra obra arquitetônica humana que sequer aproxime-se das maravilhas que a natureza nos fornece. Ora, penso que esssa constatação de Montagine é de grande importância, especialmente se lavarmos em conta que hoje em dia, lamentavelmente estamos cada vez mais perdidos em labirintos urbanos e nos distanciamos cada vez mais dessas belezas oriundas da natureza, para as quais mal sobram espaço nos grandes núcleos urbanos, que as sufocam com o excesso de seus concretos e cores cinzentas.

[…] a guerra travada contra a natureza tem sido uma realidade avassaladora e parece que o homem não pretende propor trégua: ele quer continuar destruindo. – “Batizado de Macunaíma”, de Tarsila do Amaral (1956).

Montaigne analisa com certa cautela as divergências culturais existentes entre os europeus e os canibais, fazendo o seguinte comentário em relação à questão da barbárie, que foi um dos traços da cultura indígena que mais chocou os seus contemporâneos: “Cada um chama de barbárie o que não é seu costume”. A esse respeito, Montaigne também ressalta que o povo dessa nova nação descoberta é designado como selvagem no sentido de serem tal como “os frutos que a natureza produziu por si mesma e por seu avanço habitual; quando na verdade os que alteramos por nossa técnica e desviamos da ordem comum é que deveríamos chamar de selvagens”. (2017, p.145). Os índios são, portanto, enaltecidos por viverem num estado de pureza, simplicidade e ingenuidade e Montaigne, perspicaz,  nesse contexto tece uma sábia “inversão” de significado: “selvagem” é uma palavra empregada para referir-se aos homens que vivem de modo mais natural, enquanto, segundo o filósofo, deveria ser utilizada, na realidade, para descrever o homem artificial que, no caso, corresponde aos seus contemporâneos. Ora, levando esse trecho em consideração, podemos, certamente, pensar que no mundo de hoje somos, então, altamente selvagens, sendo que nesse estado primitivo, apresentamos constantemente comportamentos mecânicos, padronizados e frequentemente devoramos uns aos outros. 

Com base em relatos que chegaram até o filósofo, ele também comenta a respeito de alguns aspectos descritivos de enorme valor histórico em relação aos índios: “Estão instalados ao longo do mar e cercados do lado da terra por grandes e altas montanhas, tendo entre os dois uma extensão de cerca de cem léguas de largura”. (2017, p. 147). Infelizmente, tanto a bela paisagem descrita nessa passagem como tantas outras que compuseram a exuberância de nosso país já não são as mesmas, pois, como bem sabemos, as obras da natureza não costumam interessar muito para a pequena elite política e econômica que ocupa o topo da pirâmide social. Com tanto desmatamento acontecendo e desatenção em relação ao meio-ambiente, em breve, pelo visto, esse tipo de descrição de paisagens ficará restrita aos livros, uma vez que, lamentavelmente, a guerra travada contra a natureza tem sido uma realidade avassaladora e preocupante em nosso país. 

Montaigne registra também que os índios tomam uma bebida feita de raiz, que dançam durante todo o dia, que sustentam a crença de que a alma é eterna e que acreditam em vários deuses. Além disso, observa que no “novo mundo”, a poligamia, isto é, ter mais de uma esposa, é uma prática normal e quanto mais bravura possui um homem, mais mulheres tende a ter. Portanto, a quantidade de companheiras está intimamente relacionada à virtude. Montaigne também comenta que a base moral dos índios é especialmente pautada na valentia, que deve ser prezada e mantida durante a guerra, e na amizade que os homens nutrem por suas mulheres. De acordo com o filósofo francês, a guerra, aliás, tem enorme importância para os índios que se mostram sempre preparados para enfrentá-la com bravura: “Eles não sabem o que é fuga e pavor” (2017, p.149). Outro ponto muito interessante do livro é quando Montaigne conta que os prisioneiros de guerra são assados e comidos, e alguns de seus pedaços são enviados para pessoas que estão ausentes desse peculiar ritual sangrento. Nesse ponto, porém, ele ressalta que os métodos de tortura praticados pelos descobridores desse novo mundo são bem piores do que isso, mais dolorosos e cruéis e diz que: “[…] podemos muito bem chamá-los de bárbaros com relação às regras da razão, mas não com relação a nós, que os ultrapassamos em toda espécie de barbárie” (2017, p.151). O filósofo francês postula uma reflexão valiosa em relação a isso: os índios comem seus inimigos quando estes já estão mortos, mas o que dizer dos europeus que torturam e tiram vidas de maneiras lentas? De qualquer forma, embora o canibalismo praticado pelos índios possa ser moralmente reprovado, de maneira sagaz e deveras provocativa, Montaigne constata: “Não fico triste por observar o horror barbaresco que há em tal ato, mas sim por, ao julgarmos corretamente os erros deles, sermos tão cegos para os nossos” (2017, p. 150). Se Montaigne fez essa observação há tanto tempo, imaginemos o que não pensaria dessa tirania e dessa violência que atualmente se encontram espalhadas em todos os cantos do globo. E infelizmente, vale dizer, de um modo geral, continuamos cegos para as nossas próprias barbáries. E, aliás, quantas vezes não se justifica a tirania sob o nome da justiça? Vide os que compactuam com a ditadura militar brasileira, chamando o golpe de revolução. Ou seja, aparentemente, muitas atrocidades desumanas pelas quais passamos não foram suficientes para que alguns de nós abrissem os olhos para os erros cometidos. Pelo contrário: muitas vezes aplaude-se e clama-se para que o erro se repita! E Montaigne estava certo, pois, muitas vezes, nós, os ditos “civilizados”, de fato, cometemos, no final das contas, todo tipo de barbárie e horror… 

Esse ensaio filosófico de Montaigne, além de carregar em si um valor histórico de imensa relevância em relação à cultura indígena, apresenta reflexões profundas e questionamentos diversos e atemporais sobre o meio no qual estamos inseridos, a tradição que nos cerca, e as categorizações precipitadas que muitas vezes fazemos a respeito daquilo que é diferente das coisas com as quais estamos habituados. 

Referência bibliográfica:

BURKE, Peter. Montaigne. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

MONTAIGNE, Michel de. Os ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


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