E SE UM GRANDE FILÓSOFO ADOTASSE UMA COMUNA? A VIDA DE VOLTAIRE EM FERNEY

Por Yuri Ribeiro

Estudar Filosofia de maneira correta não é fácil: é um tema que acompanha a humanidade há mais de 2 milênios e que foi alvo de estudo de grandes mentes da história. Estudar Voltaire é um bom exemplo disso, pois não só a personalidade do filósofo é complexa e rica, mas o mesmo se aplica às suas obras. Extrair conhecimento do legado das grandes personalidades da filosofia exige dedicação, e em alguns casos, um livro introdutório que nos ajude a conhecer o pensador em questão antes de nos aprofundarmos em seu universo é um acompanhamento recomendável, e é sobre um livro desses que iremos falar.

A vida de Voltaire em Ferney de Juliana Vannucchi e Flávio Parrinelo é uma obra equilibrada. Parte histórica, biográfica e a apresentação à filosofia de Voltaire se entrelaçam de maneira harmoniosa, tornando a leitura fluida. O livro acaba rápido e, apesar de ser completo, deixa uma vontade de saber mais sobre Voltaire em sua amplitude e suas contribuições para o nosso mundo.

O livro escrito por Juliana Vannucchi e Flavio Parrinelo gira em torno do microcosmo de Voltaire, que é a comuna de Ferney, hoje Ferney-Voltaire. 

A obra desse ilustre filósofo em português no Brasil é muito bem-vinda. Apesar de ser complexo estimar a quantidade de publicações sobre Voltaire lançadas no país, não é difícil saber que ela é pequena. Em uma pesquisa realizada no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, encontramos apenas 175 resultados para Voltaire; já para Nietzsche, 1999 resultados; para Platão, 1479 resultados; para Sócrates, 1119. Isso indica que apesar de Voltaire ter sido um escritor proeminente e com obra vasta, não é muito estudado no Brasil, o que é problemático, uma vez que inúmeros dos seus ensinamentos acrescentariam muito ao país em diversas questões, com destaque para assuntos como liberdade de expressão e liberdade religiosa, temas atuais e importantes para uma nação que passou por duas grandes ditaduras.

O livro gira em torno do microcosmo de Voltaire, que é a comuna de Ferney, hoje Ferney-Voltaire. Isso é grandioso, pois podemos ver um fenômeno raríssimo entre os grandes pensadores da história: e se uma dessas mentes pudesse influenciar de maneira prática um local e sua população? Quais seriam as implicações de causar mudanças práticas em um ambiente usando suas teorias e convicções, indo além do teórico?

Segundo o livro, o caso de Voltaire foi um sucesso, já que Ferney se desenvolveu e o local, até então miserável, pouco populoso e pantanoso, cresceu e tornou-se próspero com a intervenção do seu patriarca: pântanos foram drenados, investimentos foram realizados na produção de seda e relógios, e diversas outras contribuições foram realizadas por Voltaire durante suas últimas duas décadas de vida.

Também conhecemos fatos curiosos lendo o livro, como a onda de venda de bengalas que eram comercializadas como tendo pertencido a Voltaire.

Ferney hoje não é apenas uma charmosa comuna, mas um importante ponto de peregrinação de quem admira o pensador. Conhecer o local é a oportunidade de ver manifestado o projeto de um dos maiores filósofos da história, sendo possível conhecer os lugares por  onde ele caminhou e descansar sob a sombra de uma das árvores que ele próprio plantou.  Para aqueles que ainda não puderam peregrinar por Ferney-Voltaire, a leitura do livro é capaz de proporcionar  essa sensação.

A autora na entrada do castelo em que Voltaire viveu. / Arquivo pessoal.

 


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