Por Sílvia Vannucchi e Yuri Ribeiro / Supervisão: Juliana Vannucchi
Publicado pela primeira vez em 1752, Micrômegas (Le Micromégas, em francês) é considerado um dos primeiros contos de ficção científica, além de ser uma das primeiras histórias a abordar a visita de seres extraterrestres à Terra. Ao que tudo indica, a narrativa foi inspirada nas Viagens de Gulliver, livro escrito por Jonathan Swift, lançado em 1726.
Esse estimado conto filosófico de Voltaire tem como protagonista um alienígena chamado Micrômegas, habitante de uma planeta que gira ao redor da estrela Sirius, e que, em certa ocasião, deixa seu mundo natal após ter um livro de sua autoria banido pela corte. Exilado, Micrômegas junta-se, então, a um habitante de Saturno, e a dupla parte para uma jornada filosófica através do cosmos a fim de, conforme o próprio Micrômegas justifica, “completar a formação de seu espírito e de seu coração”.
Essa narrativa voltairiana, assim como muitos outros textos produzidos pelo pensador francês, é repleta de sátiras e provocações. Tais características são preponderantes em todo o livro embora, sobretudo, manifestem-se de modo mais acentuado nas passagens em que Voltaire apequena a condição humana através de uma série de metáforas. Nesse contexto, já no primeiro capítulo, por exemplo, o autor descreve o imenso tamanho de Micrômegas, que possuía oito léguas de altura e refinadas proezas sensoriais, amplamente acima dos padrões humanos. O planeta do sartuniano, também é surpreendentemente grande, sendo 21,6 milhões de vezes maior que a Terra. Além disso, é dito que Micrômegas, quando tinha 450 anos, mal havia saído da infância. Mais adiante, nos capítulos posteriores, Voltaire atesta a soberba humana ao destacar que os homens são criaturas “infinitamente pequenas”, ainda que possuam um “orgulho infinitamente grande”. Além disso, ainda com o propósito de constatar a pequenez de nossa espécie, escreve que nosso planeta é uma “bolinha de barro” e define seus habitantes como “seres imperceptíveis” e “raquíticos”. Essas colocações feitas por Voltaire visam, sobretudo, revelar o quanto somos pequenos diante de um universo de tamanho imensurável e mostram que, ainda que geralmente pensemos saber muita coisa a respeito da existência, no fundo pouco sabemos, porque o desconhecido sempre prevalece em relação ao conhecido. Ora, é justamente por isso que no início do conto é dito que a história irá explorar o “pouco que sabemos e o muito que não sabemos”. Desse modo, revelar a ignorância humana que se oculta atrás da máscara da prepotência é uma das finalidades da história e um dos seus traços mais perceptíveis.

Nesse âmbito, vale a pena estabelecer uma reflexão sobre o mundo atual: hoje, notamos que a maioria das pessoas não tem contato ou acesso à Filosofia, aos pensadores, às suas teorias e conceitos. Desse modo, geralmente, carentes de senso crítico, costumam seguir desenfreadamente as convenções sociais, os líderes políticos e as religiões, apenas para se encaixar num determinado grupo, sem fazer qualquer questionamentos, tendo geralmente, por isso, uma visão equivocada ou incompleta sobre qualquer coisa, tanto no âmbito teológico quanto moral, político, metafísico e outros. Esta seria a postura comum do homem atual que, portanto, está sempre cheio de certezas, sem dar-se conta de que, na verdade, mal conhece este mundo, sendo incapaz, desse modo, de notar sua própria insignificância na grandeza do universo. Em contrapartida, no conto de Voltaire, embora Micrômegas e o saturniano sejam imensos em tamanho, tenham vidas longas e sentidos aguçados, sua verdadeira grandeza reside justamente no fato de admitirem que desconhecem o universo e que pouco ou nada sabem a respeito das coisas. Para os personagens, é mais que necessário que façamos constantemente questionamentos sobre tudo que está ao nosso redor, pois por trás de nossas convicções pode existir muito há ainda ser descoberto e analisado.

Certamente, Voltaire foi uma das mentes mais brilhantes de todos os tempos e, até os dias de hoje, seus escritos, em vários aspectos, continuam sendo muito importantes para qualquer um que preze pela liberdade de pensamento. A produção literária atemporal deixada por ele é extensa e engloba obras escritas nas mais variadas formas literárias, como, por exemplo, ensaios filosóficos, peças de teatro, romances, poesias e cartas. Por meio de suas abordagens críticas e de sua escrita atraente, Voltaire instigou seus contemporâneos, convidando-os a pensar de maneira mais crítica a respeito de vários aspectos de seu cotidiano. E a herança literária deixada por este magnífico filósofo francês permanece tendo este mesmo poderoso efeito de conduzir os leitores a refletirem de maneira mais profunda sobre inúmeras questões que fazem parte da existência. Ao nos preparar para a liberdade – expressão que constava em seu carro funerário -, Voltaire incentiva-nos a exercer a razão e refutar de maneira rigoroso tudo que nos cerca e que parece certo.
Referências:
VOLTAIRE. Dicionário filosófico. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2020.
__________. Micrômegas: uma história filosófica. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
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