A OBRA DE WILLIAM BLAKE COMO CONTRAPONTO À RAZÃO

Por Juliana Vannucchi

William Blake (1757-1827), consagrado pintor e poeta inglês, é considerado um dos principais precursores do romantismo. Em função disso, na época em que começou a pintar e escrever, sua estética portava um caráter notavelmente inovador e desafiador para seus contemporâneos e, desse modo, parte de suas produções artísticas foi rejeitada, mal vista e criticada, pois estava além de qualquer padrão estilístico vigente. E se uma parcela de suas pinturas e poesias foi questionada ou mesmo ignorada, ressalte-se que o próprio artista foi considerado insano – em partes, porque Blake carrega em sua biografia, cabe dizer, uma série de experiências suprassensíveis, que envolvem visões de anjos, de Deus, sonhos com pessoas falecidas que lhe passaram informações relevadoras, dentre outras vivências espirituais, ocorridas tanto durante o sono, quanto em pleno estado de vigília. De qualquer modo, Blake nunca pareceu incomodar-se com os rótulos direcionados a ele ou ao seu material artístico e permaneceu sempre fiel em relação à sua obra, sua visão de vida e proposta criativa. Gombrich, a esse respeito, faz uma colocação pertinente: “Blake foi o primeiro artista, depois da Renascença, que se rebelou conscientemente contra os padrões aceitos da tradição, e não podemos criticar os seus contemporâneos porque o consideraram chocante”. (1999, p. 490). Nesse contexto, ainda cabe mencionar que o habitual desapego do artista inglês para com as normas e costumes de seu tempo, resultou em grande dificuldade financeira e Blake viveu parte da sua vida na pobreza. Conta-se que ele só não morreu de fome porque algumas poucas pessoas acreditaram em seu potencial e, assim, ajudaram-no a sobreviver.

Blake certamente é um dos artistas mais brilhantes de todos os tempos. Sua ênfase em temáticas religiosas e místicas, expressas por meio de figurações, e o complexo universo mitológico que ele criou para dar vasão às suas ideias e servir como contraponto aos dogmas religiosos estabelecidos, são aspectos que revelam sua genialidade e engenhosidade criativa. Além disso, um dos traços mais marcantes de seu universo artístico é sua perspectiva antirracional, que consistia, para o pintor, num fundamento intuitivo que serviria como chave para que outras dimensões da existência pudessem ser acessadas. Blake, assumidamente encarava com recusa o avanço excessivo do racionalismo, visto como um caminho opressor e limitado. Nesse âmbito é preciso compreender que a própria arte, para ele, pertencia a um campo interior, ao espírito, à intuição. A respeito dessa maneira pela qual o artista inglês concebia a arte, Giulio Carlo Argan (1988, p. 35) menciona: “A Arte, segundo ele (Blake), é conhecimento intuitivo não mais das coisas individuais, mas das forças eternas e sobre-humanas da criação”. Foi justamente tendo em vista esse referido contexto que William Blake escreveu uma de suas mais populares frases, cujo propósito é indicar a existência de uma apreensão da vida que está além dos cinco sentidos e da atividade racional: “Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria ao homem tal qual é, infinito”. Desse modo, entenda-se, um dos grandes eixos da visão filosófica de mundo de pintor inglês era justamente a crítica à restrição do pensamento lógico e científico, ideia que Blake também representou por meio de um personagem chamado Urizen (nome que, ao que tudo indica, provém da expressão inglesa “our reason”, isto é, “nossa razão”), criado para expressar o aprisionamento e a domesticação aos quais estamos fadados quando condicionamos nossa vida de um modo estritamente racional, uma vez que há instâncias da existência– talvez, inclusive, as mais elevadas e sagradas – que podem ser acessadas por outros meios, tal como, por exemplo, a imaginação, que era enfaticamente defendida por Blake. Urizen, por isso, numa determinada menção feita pelo pintor, é descrito como um ser contido por firmes correntes, e que cria uma série de leis afim de arquitetar um mundo que seja capaz de governar e no qual possa viver  (ele, portanto, busca “medir”, “alinhar”, “dividir” e “organizar” as coisas ao seu redor, afim de impor o controle e se afastar do caos). E, no final das contas, o tirânico Urizen cria ainda a religião, especialmente forjada para limitar as mentes humanas – na verdade, esse processo simboliza a própria razão como algo divinizado, digno de uma adoração cega que acaba por minar a percepção humana, cuja natureza possibilita o acesso a camadas existenciais que estão além dos filtros impostos pela prisão da racionalidade, que sempre, de alguma forma, distorce e corrompe o mundo por intermédio das estruturas por ela engendradas. Conforme citado num artigo publicado na revista Magill’s Survey of World Literature, esses aspectos “diminuem a experiência humana”.

O Ancião dos Dias (1794).

Para uma contextualização mais apropriada, vale ainda mencionar que William Blake viveu num período histórico de grandes acontecimentos, tendo presenciado a Revolução Industrial e o Iluminismo. Estas circunstâncias somadas às suas experiências sobrenaturais, certamente contribuirão para que o artista inglês acreditasse que a arte era uma atividade que se encontrava além dos limites do campo físico, material e científico. A arte para ele, afinal, é elevação, transcendência e, desse modo, consiste exatamente naquilo que escapa à razão. Nesse sentido, um artigo do site Poetry Society nos lembra que numa carta datada de 1803, William Blake é enfâtico a esse respeito, e esclarece que sua obra é “dirigida à Imaginação, que é Sensação Espiritual” e apenas indiretamente ou intermediariamente “ao Entendimento ou à Razão”. 

Como podemos ver, este grande artista nos deixou uma obra imortal, composta por uma vasta quantidade de pinturas e poemas fascinantemente inspiradores, que merecem ser amplamente estudados e que são capazes de gerar inúmeras reflexões.

Referências:

ARGAN, Giulio. Arte Moderna. 1988. São Paulo: Companhia das Letras.

BLAKE. William. O casamento do céu e do inferno e outros escritos. Porto Alegre: L&PM Editores, 2017.

GOMBRICH, Ernst. A história da arte. 1999. Rio de Janeiro: LTC.

https://www-britannica-com.translate.goog/topic/Urizen

https://ora.ox.ac.uk/objects/uuid:f0230d3a-4425-422e-9f85-7101028e372d

https://ypn-poetrysociety-org-uk.translate.goog/features/william-blake-and-the-doors-of-perception/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=sge

https://www.ebsco.com/research-starters/literature-and-writing/first-book-urizen-william-blake

 


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