Por Cristina Bugs
Juliana Vannucchi, autora e pesquisadora sorocabana, lançou recentemente, pela Editora Grou, o livro A vida de Voltaire em Ferney, que explora detalhes do período em que o pensador iluminista viveu na cidade de Ferney, situada na França, perto da fronteira com a Suíça. Confira abaixo a conversa que tivemos com a escritora.
1) Você está lançando o livro A Vida de Voltaire em Ferney, poderia, primeiramente, nos falar um pouco a respeito do filósofo Voltaire e de sua importância para o cenário filosófico de sua época?
Primeiramente, acho fundamental entendermos que Voltaire não foi apenas um filósofo, mas também um poeta e um dramaturgo. Partindo desse pressuposto, devemos compreender que o impacto que ele teve na época em que viveu, se deu, certamente, nessas três frentes. Muitas de suas ideias filosóficas eram, inclusive, difundidas através da poesia. No período em questão, a maior importância de seu legado deve-se às suas lutas pela tolerância e sua postura combativa em relação ao fanatismo e à superstição. Voltaire defendeu publicamente vítimas da injustiça – ele melhorou significativamente as condições de trabalho dos servos da Montanha do Jura (que passaram a praticamente venerá-lo), contribuiu para que a família Sirven, que havia sido vítima da intolerância pregada por autoridades religiosas, recebesse doações, e praticamente limpou o nome de Lally-Tollendal. Será que há outro filósofo que tenha sido tão atuante, tão ativo em prol da justiça? “Quero morrer numa terra onde os homens sejam menos injustos”, escreveu Voltaire numa ocasião.

2) O que despertou o seu interesse por esse filósofo?
Quando eu estava na faculdade, cursando Filosofia, eu tive contato com o livro Tratado de metafísica e essa leitura foi suficientemente instigante para que eu me apaixonasse pela escrita e pelos pensamentos de Voltaire. Além disso, conforme fui avançando na leitura das obras voltairianas, a ironia que ele usa como tempero em seus escritos, foi outro aspecto que me cativou.
3) Sobre o Chatêau Ferney, você poderia nos falar um pouco sobre este lugar e sobre a sua experiência por lá?
Há alguns anos atrás eu tive a oportunidade de visitar o chateâu de Ferney. Estive lá em três ocasiões. Aquele local foi imediatamente magnético pra mim, e me senti muito emocionada por estar num ambiente em que Voltaire viveu e escreveu algumas de suas obras mais renomadas. Minha experiência foi amplamente enriquecida pela presença do arqueólogo Flavio Parrinello. Fiz praticamente uma visita guiada com ele e conversamos muito sobre a história do castelo e sobre alguns aspectos da filosofia de Voltaire. Foi interessante perceber o quanto esse célebre filósofo iluminista continua sendo respeitado na cidade e também em Genebra e Paris – há lugares e ruas que levam seu nome ou fazem alusão direta à suas obras. Será que com outros pensadores isso é tão frequente? Eu nunca vi! Percebi que Voltaire é amplamente reconhecido.

4) Como foi o seu processo de criação do livro e o desenvolvimento dessa pesquisa?
Passei quase dois anos lendo e estudando todos os textos que encontrava a respeito do tema, colhendo materiais, organizando ideias e enviando algumas partes do que produzia para que o Flavio pudesse analisar e conferir alguns dados. Como não há praticamente nada publicado em português a respeito do tempo que Voltaire passou em Ferney, tive que traduzir bastante coisa.
5) Em sua opinião, qual (quais) a maior contribuição que Voltaire pode oferecer para o pensamento ocidental em nosso mundo contemporâneo?
Creio que a resposta está no próprio túmulo de Voltaire, numa inscrição que diz que ele engrandece o espírito humano e ensina-o a ser livre. Portanto, sua maior contribuição, em suma, está no caráter emancipatório de sua filosofia. Ao confrontar a monarquia e a Igreja, Voltaire desafiou diretamente os núcleos mais poderosos e influentes de sua época. Ninguém estava imune aos seu questionamentos, e entendo que essa postura deve nos inspirar porque é comum que as pessoas, sem que percebam, sejam contaminadas ou mesmo controladas por instituições de poder. Voltaire, lembremos. foi preso, teve obras censuradas, livro queimado… e sofreu outras represálias. Mas ele permaneceu firme em sua postura de refutação e denúncia. Foi rebelde, ousado, corajoso e firme em seus propósitos.
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