Por Cristina Bugs
“Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito peregrinou, dês que e sfez as muralhas sagradas de Troia […]” – Homero
O épico homérico, Odisseia, é uma obra que já inspirou inúmeras produções literárias e cinematográficas, povoando o imaginário popular ao longo de milhares de anos, desde a sua fixação escrita até os nossos dias e sobre a qual muito já foi dito. Assim como a Ilíada, obra que a antecede, ambas tiveram suas lendas e aventuras míticas recolhidas da tradição oral por centenas de anos até chegar ao seu registro escrito definito por volta do sec. VI a.C., cuja autoria foi atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido entre os séculos IX e VIII a.C. (Brandão, 1986) Nesse sentido, dada a sua longevidade, não deveríamos nos surpreender quando temos diante de nós mais uma versão inspirada em um poema homérico nas telas do cinema. Contudo, criamos expectativas e ficamos animados em prestigiar mais uma versão dessa obra magistral, que é a Odisseia, dada a sua magnitude, sobretudo, quando temos a condução de um diretor tão competente quanto Christopher Nolan liderando o projeto.
Assim são as grandes obras, aquelas que permanecem ao tempo e seguem inspirando os corações e as mentes daqueles que com elas têm contato. Como nos diz Ítalo Calvino (2007), “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, ou ainda, “é clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Citando apenas alguns dos tantos atributos dos clássicos que o autor elenca, a versão de Nolan corrobora Calvino, já que também tem algo a dizer e a acrescentar à clássica Odisseia homérica. Ressalto esses aspectos no sentido de que ainda é possível dialogar com a obra original e fazê-lo de um modo inventivo e autoral. E o diretor Christopher Nolan consegue realizar essa tarefa belissimamente. Portanto, sim, nós, os apaixonados pela poesia homérica, ficamos empolgados com esse novo filme e, por aqui, também não me isentarei de comentar a obra à luz dessas impressões.
Primeiramente, é importante ressaltar que a Odisseia homérica é uma obra de inspiração mítica que narra a jornada de retorno de Odisseu para a sua terra natal, Ítaca, da qual também é rei, 20 anos após ter partido para Troia, sendo dez anos em guerra e outros dez em um retorno tortuoso. O herói e sua tripulação veem-se com dificuldades de voltar para casa, na medida em que se deparam com incontáveis barreiras monstruosas e fantásticas, as quais precisam transpor, ao passo que o próprio Poseidon, deus do Oceano, e Hélios, deus do Sol, tornam-se seus opositores. Nesse percurso, eles encontram os ciclopes e Polifemo, filho de Poseidon; os monstros marinhos, Cila e Caríbde; as Sereias, os Lestrigões e os Lotófagos; a deusa feiticeira Circe; a ninfa Calipso e a bondosa princesa feácia, Nausícaa. Recebem auxílio de Éolo, deus dos ventos; Hermes, deus mensageiro, e até do Hades, mas é principalmente da deusa Athena, deusa da sabedoria, de quem Odisseu receberá toda a proteção e orientação em seu percurso, assumindo ela diversas formas no decorrer de sua jornada.
Em contrapartida, Ítaca se vê assolada por invasores e hóspedes indesejados, que abusam da hospitalidade de sua anfitriã Penélope, esposa de Odisseu, e de seu filho Telêmaco, consumindo todos os seus recursos, enquanto aguardam a escolha de Penélope por algum dos pretendentes que ali estão, já que, aparentemente, Odisseu estaria morto. Penélope posterga o ato construindo um manto de dia e desfazendo-o à noite, a fim de adiar, astuciosamente, a sua decisão. O herói, finalmente, retorna para casa, após vencer todos os obstáculos que se lhe opuseram, assume o disfarce de um homem velho, derrota os pretendentes, pune os traidores e recupera, assim, seu reino, sua família e seu lar.

A Odisseia (2026), de Christopher Nolan, definitivamente, assume diversas premissas da história original. É possível reconhecer claramente o objetivo de trazer à vida uma versão da obra homérica, seu ponto de partida, mas, ao fim e ao cabo, o diretor constrói uma jornada mais introspectiva do herói, imprimindo uma visão muito peculiar para o contexto geral da história. Ela flerta com os diálogos do nosso tempo, e isso também é muitíssimo interessante e até mesmo inovador. E não, não estou considerando a escolha do elenco e a discussão antecipada e preconceituosa das redes a esse respeito durante os meses que antecederam a estreia do filme. Nesse contexto, precisamos levar em conta que o filme de 2026 é uma releitura artística que não tem a menor obrigação em ser totalmente fiel à obra original. E isso, de forma alguma, desmerece essa produção, ou qualquer outra que se proponha a tal empreitada. Comparativamente à obra homérica, e é impossível deixar de fazê-lo, o fato é que o filme faz opções que nos conduzirão por um caminho narrativo e estético distinto, abrindo oportunidade para mudanças importantes acerca da interpretação que podemos colher de Odisseu e sua jornada a partir da obra fílmica.
Desse modo, dentre as opções significativas que gostaria de sublinhar, começo trazendo à baila o ocultamento da visita de Telêmaco ao veterano Nestor em busca de seu pai Odisseu, mostrando apenas sua visita a Menelau, em Esparta. Uma opção econômica que demonstra ao espectador que o filho está em busca de respostas sobre o paradeiro do pai, um “enxugamento” da Telemaquia, sem grandes prejuízos para esse arco narrativo. Também há figuras que sintetizam ações de diversos núcleos que na história estavam distribuídos entre mais personagens, a exemplo dos Lotófagos, dos feácios e de Nausícaa, que aqui estão, de certo modo, subsumidas pela ninfa Calipso. Esta assume em si mesma a condição de sua única amante e ouvinte dos relatos de Odisseu, da qual se torna uma espécie de prisioneiro que passa a consumir a flor de lótus do esquecimento administrada por ela. Ela carrega ainda uma dimensão compassiva em relação a ele, que, no entanto, somente ao ser repreendida pelo “raio de Zeus”, entende que deve deixá-lo partir e ajudá-lo a retornar definitivamente ao seu verdadeiro lar. Uma opção eficaz que funcionou muito bem para a fluidez da narrativa. Também a personagem Melanto, apesar de sua minúscula participação, resume em si todas a servas de Penélope que a traíram e mantiveram relações com os pretendentes, e que também foram punidas por isso. Com uma pequena e significativa alteração, aqui vemos que é Penélope quem assume a decisão de abandonar Melanto à própria sorte na sala dos pretendentes em que serão executados, e não Telêmaco e Odisseu, que chacinam todas as servas desleais, como acontece no poema, suavizando muito esse aspecto rigoroso de Odisseu. Um ponto a sublinhar, seriam ainda as aventuras que, no contexto do filme, parecem estar ali, em certa medida, apenas para nos fazer perceber o quão perdidos estavam Odisseu e sua tripulação. A exemplo da aparição dos Lestrigões, os antropófagos com armaduras medievais, que no filme fazem estragos em algumas embarcações de Odisseu e reduzem a tripulação. De igual maneira, temos o turbilhão Caríbde e o monstro Cila, dos quais eles precisam desviar e sobreviver, e isso também é realizado de um modo quase que banal; paradoxalmente e equilibrando a balança, todas essas cenas são igualmente impressionantes e grandiosas quanto ao seu aspecto visual.

Tendo em vista essas observações, considero digno de nota mencionar que o episódio com as sereias, ainda que timidamente minimalista em termos visuais, trouxe uma poderosa beleza que a mim gerou um impacto muito significativo e até emocionante ao observar a “luta” que se desenvolvia no interior de Odisseu que escutava o canto das sereias ao longe, junto a uma narração que evidenciava o que seria querer o que não se pode ter. Uma alternativa poética e bela para alguns, e para outros, apenas preguiçosa; sem dúvida alguma, fico com os primeiros. Ademais, aprecio consistentemente a presença de Athena e seu arco narrativo junto a Odisseu, a única divindade a integrar a obra fílmica enquanto tal, ainda que ao final do filme nos vejamos confrontados com essa informação, defendo que esse evento não retira em nada a força de sua manifestação em toda a história. Também, uma cena belamente cativante e corajosa.
Sobre este aspecto da presença divina, é interessante salientar que o filme Troia (2004), dirigido por Wolfgang Petersen, foi realizado com todas as batalhas e ações decisivas dos heróis, sem nenhum motivo divino justificado e subjacente aos personagens. Estes acabam delineando por si mesmos seus próprios destinos, algo que é totalmente distinto da Ilíada, de Homero, o poema épico no qual o filme foi inspirado, e sendo esta uma das razões de haver recebido duras críticas pelo que seria lido como uma espécie de acovardamento em não retratar em nada esse significativo aspecto da história. Em termos de entretenimento e qualidade audiovisual, é um excelente filme e possui seus próprios méritos e virtudes.
Já o roteirista, produtor e diretor de cinema britânico, Christopher Nolan, que em sua ampla filmografia reúne títulos memoráveis de extrema qualidade técnica, e pelos quais é reconhecido por conduzir narrativas não lineares, como em Tenet (2020), Interestellar (2014), A Origem (2010), O Grande Truque (2006), Amnésia (2000) etc., tem na Odisseia um “prato cheio” para brincar com a não linearidade narrativa, uma das principais características desse grandioso poema épico, que é uma de suas mais notáveis peculiaridades. E de fato, o diretor se vale dessa condição, em alguns momentos, diria que até rápido demais, a um ponto de quase tornar o acompanhamento da história um tanto cansativo devido aos inúmeros flashbacks iniciais. Felizmente, esse estado é contornado com a “estabilidade” da história, e, em algum momento, percebi que estive apenas mareada junto com Odisseu devido a tantos eventos aterrorizantes e fantásticos pelos quais havia passado até ali.
Outra característica do diretor que gostaria de ressaltar é o aspecto da construção narrativa da realidade que ele costuma imprimir em suas produções, pelas quais, muitas vezes, é lido como quem utiliza demasiados recursos explicativos e racionais para que suas tramas complexas façam sentido para o público. Curiosamente, a maior parte dessas mesmas produções também permite gerar, nesse mesmo público, conclusões dúbias acerca do que se está a “perceber”, seja no desenrolar dos atos, seja com seus finais em aberto, o espectador precisa se resolver sozinho com o material ao qual foi exposto. De igual maneira, sobre a presença dos deuses no universo de Odisseia, Nolan também administra essa concepção com sua própria assinatura: deixa ao gosto espectador. Os deuses estão presentes na manifestação dos eventos da Natureza, e isso é um “grito sutil” de sua aprovação e reprovação às ações dos personagens. Uma alternativa elegante para trazer esse elemento da religiosidade grega: Zeus, nos raios e no céu; Poseidon, no oceano tormentoso, por exemplo. Portanto, o arco narrativo de Athena é valiosíssimo, bonito no contexto da história, e sua sutileza permite que entendamos a presença daquela personagem na mente de um homem ferido e culpado, revelando-nos seu verdadeiro estado interior. Concomitante a isso, sim, Athena está lá. Pode ser decepcionante para muitos, mas certamente, em termos de articulação divina no mundo dos humanos heróis, Nolan fez uma opção narrativa bem mais corajosa e coerente com sua própria trajetória artística, do que a Troia, de Wolfgang Petersen, arriscando aqui uma comparação certamente injusta, mas justificada para fins interpretativos dessas releituras das obras homéricas.
Por fim, é preciso evidenciar que temos em Nolan um Odisseu ferido por suas memórias, alquebrado pela culpa de suas decisões e de sua engenhosidade. Estamos diante de um herói que está com a alma assombrada pelos fantasmas de suas ações, e o filme se refere, fortemente, ao cavalo de madeira que foi ofertado à Troia, uma ideia de Odisseu, e a todas as consequências sanguinolentas que dela advieram. Todavia, o filme pouco nos mostra a sua Métis pela qual o Odisseu homérico é tão reconhecido, isto é, sua astuciosidade, sua inteligência prática, sua sábia esperteza, com a qual também é capaz de enganar, mentir, trapacear, disfarçar-se para vencer seus obstáculos, sejam eles quais forem. Lembramos que a própria deusa Athena é filha de Zeus e da deusa oceânide e metamorfa Métis, e reúne, ao modo de sua mãe, essas características de uma forma ainda mais sofisticada e com as quais agracia seus protegidos, como o próprio Odisseu, na epopeia homérica. Voltando ao filme de Nolan, temos uma espécie de momento de virada em que entendemos que estamos diante de um Odisseu de outro tipo, que é o memorável episódio com o ciclope Polifemo, filho de Poseidon. O roteiro opta por ignorar este que é um dos eventos mais significativos da astuciosidade odisseica: a sua autodenominação como Ninguém para enganar o ciclope e escapar de seu cativeiro com o que resta de sua tripulação. Ainda que, depois, por zombaria e vaidade, ele revele seu nome estando já em alto mar, atraindo a ira de Poseidon para si na épica homérica, o ocultamento desse aspecto de Odisseu, no filme, retira essa sua argúcia e coloca no lugar algo que despertou em mim mais empatia pela jornada deste herói construindo uma percepção muito distinta da que é possível obter em Homero. Junte-se ao episódio em que se descobre que os temidos povos do mar são os próprios aqueus voltando de Troia, cuja fama é de caos e destruição, e temos um filme que promove uma autoconsciência da amplitude da falha humana, seja no coração de um homem, seja ele retratado na sua identidade coletiva.
Em tempos nos quais presenciamos invasões de países sobre outros com desculpas bem-intencionadas, porém com uma cruel roupagem imperial e neocolonial; guerras e massacres que contemplamos estarrecidos a olhos nus, seria desejar muito que essas lideranças tivessem uma autoconsciência básica da destruição que promovem sobre o mundo e do impacto que suas decisões têm sobre os indivíduos com algum pesar em seus corações ao ponto de evitarem-se novos desastres? Talvez, a Métis de Nolan/Odisseu esteja exatamente aí: no convite a um olhar mais sagaz para rever aquilo que consideramos heroico, grandioso e épico. Quem são nossos heróis?
Referências:
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega Vol. I. Petrópolis: Editora Vozes, 1986.
CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
HOMERO. Ilíada. Tradução Carlos Alberto Nunes. 25ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
________. Odisseia. Tradução Carlos Alberto Nunes. 25ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
ODISSEIA. Direção: Christopher Nolan. Los Angeles: Universal Pictures, 2026. (173 min.).
TRÓIA. Direção: Wolfgang Petersen. Estados Unidos: Warner Bros. Pictures, 2004. (196 min).
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