“NÃO PODEMOS TRANSFORMAR EM DOENÇA AQUILO QUE MUITAS VEZES É CONSEQUÊNCIA DE UMA REALIDADE PROFUNDAMENTE INJUSTA”: CONFIRA A ENTREVISTA COM O TERAPEUTA E ESCRITOR CELSO CRISTIANO

Por Juliana Vannucchi e Sílvia Vannucchi

Celso Cristiano, terapeuta familiar e autor do conceituado livro Entre ideias e terapias, conversou conosco sobre a influência da Filosofia na história da Psicologia, o impacto das redes sociais na saúde mental, as inspirações que o levaram a escrever seu livro, dentre outros assuntos. Celso é licenciado em Filosofia pela UNISO, graduado em História pela UNIFRANCA e pós-graduado em Terapia Familiar e Psicanálise pela UNYLEYA. Também é integrante do Instituto Fundamente e facilitador da Oficina Escrita. Confira como foi esse diálogo reflexivo!

1) Atualmente, fala-se muito a respeito de saúde mental. O que demonstra que uma determinada dor, uma angústia ou um problema que está sendo enfrentado por alguém exige ajuda profissional?

Antes de tudo, é importante dizer que sentir tristeza, medo, ansiedade, frustração ou angústia faz parte da experiência humana. Não existe uma vida sem sofrimento. O problema não é sentir, mas quando esse sofrimento passa a limitar a vida, impede a pessoa de trabalhar, estudar, descansar, cuidar de si ou de manter vínculos afetivos.

Também é importante lembrar que nem todo sofrimento nasce apenas da história individual. Muitas dores são produzidas por contextos sociais marcados pela desigualdade, pela violência, pelo racismo, pela pobreza, pelo preconceito, pelo desemprego e pela falta de oportunidades. Não podemos transformar em doença aquilo que, muitas vezes, é consequência de uma realidade profundamente injusta.

Buscar ajuda profissional não significa que alguém “não deu conta”. Significa reconhecer que algumas travessias não precisam ser feitas sozinhas. A psicoterapia oferece um espaço de escuta, acolhimento e elaboração, onde o sofrimento pode ganhar palavras, sentido e novos caminhos. Cuidar da saúde mental é um gesto de respeito consigo mesmo.

2) Há bastante discussão sobre o impacto das redes sociais na saúde mental. De que modo elas podem contribuir para o desenvolvimento de condições patológicas? Quais são os principais riscos e como podemos nos prevenir? Em contrapartida, de que modo elas podem ser saudáveis?

As redes sociais não são boas nem ruins por si mesmas. Elas são ferramentas, e o modo como nos relacionamos com elas faz toda a diferença.

Vivemos em uma cultura que valoriza produtividade, aparência e desempenho. As redes acabam intensificando isso ao oferecer comparações constantes, vidas aparentemente perfeitas e uma sensação permanente de que estamos sempre ficando para trás. Isso pode favorecer sentimentos de inadequação, ansiedade, baixa autoestima, solidão e, em algumas situações, contribuir para o agravamento de quadros como depressão, transtornos alimentares e dependência digital.

Mas é importante reconhecer que o acesso às redes também é atravessado por desigualdades. Enquanto algumas pessoas encontram informação, apoio e oportunidades, outras lidam com discursos de ódio, violência, exclusão e desinformação.

A prevenção passa por desenvolver uma relação mais consciente com o ambiente digital: estabelecer limites de tempo, selecionar conteúdos que promovam bem-estar, lembrar que a vida publicada é apenas um recorte da realidade e preservar momentos de presença fora das telas.

Ao mesmo tempo, as redes podem ser espaços potentes de encontro. Elas aproximam pessoas, democratizam informações sobre saúde mental, ajudam a romper o isolamento, criam comunidades de apoio e ampliam o acesso ao conhecimento. Quando usadas com consciência, podem fortalecer vínculos em vez de enfraquecê-los.

Celso Cristiano: “Os atendimentos me tornou mais sensível à complexidade das pessoas e mais comprometido com uma prática baseada no respeito, na ética e na humanidade.”

3) O que o motivou a escrever seu livro? E quais são os principais tópicos que você aborda na sua obra?

O livro nasceu do desejo de aproximar reflexões cotidianas das pessoas. Muitas vezes, o conhecimento produzido nos atendimentos ou até na universidade permanece distante da vida cotidiana. Minha intenção foi construir uma linguagem acessível, sem abrir mão da profundidade.

A obra convida o leitor a refletir sobre temas como sofrimento humano, relações afetivas, identidade, pertencimento, luto, autocuidado, saúde mental, vulnerabilidade, desigualdades sociais e os desafios de existir em um tempo marcado pela velocidade e pela exigência constante de desempenho.

Mais do que oferecer respostas prontas, o livro procura criar perguntas que ajudem cada pessoa a compreender melhor sua própria história e sua maneira de estar no mundo.

4) O que sua jornada enquanto Terapeuta Familiar mudou em você? Como você encarava o mundo antes de assumir essa profissão, e como o vê atualmente?

A Terapia Familiar me ensinou que nenhuma história pode ser resumida ao comportamento de alguém. Hoje compreendo que, antes de qualquer julgamento, existe uma trajetória, um contexto, perdas, afetos e condições de vida que precisam ser considerados.

Talvez a maior transformação tenha sido aprender a escutar. Escutar sem pressa, sem a necessidade de oferecer soluções imediatas e sem reduzir a experiência humana a diagnósticos.

Também passei a enxergar com mais clareza como os sofrimentos individuais estão profundamente ligados às questões sociais. Não existe saúde mental desconectada das condições de trabalho, da moradia, da educação, do acesso à saúde, da segurança e do direito de existir com dignidade.

Os atendimentos me tornou mais sensível à complexidade das pessoas e mais comprometido com uma prática baseada no respeito, na ética e na humanidade.

Celso Cristiano: “A Filosofia amplia nossa capacidade de pensar criticamente, de reconhecer diferentes modos de viver e de evitar respostas simplistas para problemas complexos.”

5) De que maneira a Filosofia, historicamente, contribui para a Psicologia?

A Filosofia é uma das grandes bases da Psicologia. Muito antes da Psicologia existir como ciência, filósofos já se perguntavam o que é o ser humano, o que é a consciência, a liberdade, o sofrimento, o desejo, o sentido da vida e a ética.

Essas perguntas continuam presentes dentro dos consultórios. A terapia, por exemplo, não trata apenas de sintomas; ela também lida com questões profundamente humanas que atravessam a existência.

Por isso, a Filosofia amplia nossa capacidade de pensar criticamente, de reconhecer diferentes modos de viver e de evitar respostas simplistas para problemas complexos.

6) Você poderia mencionar um filósofo que considera determinante para abordagens clínicas? Que tipo de conhecimento filosófico é indispensável dentro de um consultório?

É difícil escolher apenas um filósofo, porque diferentes autores contribuem de maneiras distintas para a prática clínica.

Entre eles, considero Martin Buber especialmente importante por compreender que o ser humano se constitui na relação com o outro. Sua filosofia do encontro nos lembra que a presença, a escuta e o reconhecimento são elementos fundamentais em qualquer processo terapêutico.

Também encontro grande inspiração em Emmanuel Levinas, ao destacar a responsabilidade ética diante do outro, e em Paulo Freire, cuja compreensão sobre diálogo, dignidade e contexto social amplia nossa forma de compreender o sofrimento humano, especialmente em um país tão desigual quanto o Brasil.

Mais do que decorar conceitos filosóficos, considero indispensável cultivar uma postura filosófica: questionar certezas, respeitar a singularidade de cada pessoa, reconhecer que ninguém pode ser reduzido a um diagnóstico e compreender que cuidar da saúde mental também significa olhar para as condições sociais que atravessam cada existência.


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